
Home - S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
"Home"
Já vi este "
Home" três vezes de tal forma o acho belo, tocante, pertinente nas questões colocadas, fundamental nas inquietações alimentadas e agora sentidas de forma ainda mais premente.
Caminharemos "alegremente" para o suicídio colectivo? Conseguiremos inverter a marcha a tempo? Somos já
Homo sapiens demens?
Eis o texto que serviu de ponto de partida para o debate.
"
HOME"
OU A IMPERIOSA NECESSIDADE DE UMA
ECOÉTICA/
ECOSOFIA
O filme de
Yann Arthus-Bertrand
proporciona-nos uma reflexão sobre uma interrogação fundamental: que relação estabeleceu e estabelece o ser humano com o seu ancestral “habitat”, a Terra? E a resposta a esta interrogação reenviará o ser humano à inquietação primeira: Qual é a essência do Homem? O que é e quem é o Homem?
Ao longo do
documentário, é perceptível a relação
ambivalente de amor-ódio que o homem mantém com o Planeta Terra. Por que destruímos os recursos naturais? Por que maltratamos a Terra?
“Os humanos moldaram a terra num ritual quase de sacrifício
infindavelmente repetido”- ouve-se no filme. E moldaram-na à sua imagem, acrescento. Sim. Talvez esta relação não passe de um espelho do que o homem faz a si próprio e aos seus semelhantes. Por que há miséria no mundo? Por que persistem as guerras? Por que potenciamos o nosso instinto de “
thanatos”?
E são estas duas relações que constituem o objecto de culto deste filme.
O
homo sapiens sapiens intrometeu-se na biografia de 400 biliões de anos do Planeta e rompeu com o equilíbrio natural: “alterou a face do mundo”. A desflorestação, a escassez de água, a poluição do ar (através da emissão de gases tóxicos para a atmosfera), a agricultura intensiva, ludibriando o Tempo de gestação e de criação quer de animais não humanos, quer de produtos
hortícolas, fazem perigar os ecossistemas e, com isso, ameaçam a
biodiversidade.
A imagem que o ser humano projecta é a de alguém que perdeu a lucidez: a de um
homo demens. Animal predador que depaupera os recursos naturais. Animal técnico e megalómano que
constrói arranha-
ceús de Nova York a Xangai ou ilhas artificiais no
Dubai. Animal insaciável, consumista compulsivo, isento de preocupações com o meio ambiente. Somos, provavelmente, o único animal que aniquila a
biodiversidade e se torna refém da capacidade criadora com que é dotado.
Não percebemos que ao fazer perigar a vida no Planeta-Mãe nos aniquilamos. É uma relação de reciprocidade. Mas se os recursos naturais escasseiam, devido à irresponsabilidade humana, isso revela que a
inteligência, “recurso” ou capacidade
intrinsecamente humana, não abunda entre nós.
Acometido de um complexo
antropocêntrico, o homem usurpou o que não lhe pertencia, o que nunca lhe pertenceu: a Terra.
Aliás, todo pensamento, toda a prática do Homem Ocidental encontra-se profundamente
enraízada nesta ética
antropocêntrica cuja premissa se poderia objectivar no facto do mundo natural existir única e exclusivamente para benefício dos seres humanos. Ética
especista, que nega os valores intrínsecos à riqueza e à diversidade de formas que transgridam a condição humana. Mas tal como os primeiros povos
recolectores que extraíam do solo apenas o essencial à
sobrevivência, também na
hodiernidade há seres humanos – como aqueles que pertencem ao movimento da
Deep Ecology - que se inquietam com estas questões e para quem deve existir uma igualdade
biocêntrica, isto é, a concepção de que “todos os organismos e entidades da
ecosfera, como partes do mundo interligado, são iguais em termos de valor intrínseco”
[1]. Assim uma gestão sustentável, consciente e racional dos recursos naturais e das diversas formas de vida, deve ser alicerçada no puro respeito que nos merecem,
independentemente dos benefícios que delas advêm para o humano.
E no contexto dos pensadores que propugnam uma
ecoética, parece-me importante relembrar o imperativo ético de
Hans Jonas: “Age de tal maneira que os efeitos da tua acção na terra sejam compatíveis com a permanência de uma vida
autenticamente humana sobre a terra”. Entre nós, Miguel Baptista Pereira advoga a
bioética como o domínio que “concerne à responsabilidade do homem enquanto observador solicito e guardião de todas as formas de vida”. E é esta atitude de protecção contínua (e partilhada) face ao meio ambiente que deverá ser encetada. De resto, este respeito surge também no
documentário através, por exemplo, dos parques eólicos ou de placas solares. Sim, “olhemos para o sol”, mas também para dentro de nós. Não só como forma de recuperarmos a confiança traída mas de repor a relação harmoniosa, de outrora, com a natureza. É que sempre que há desequilíbrios visíveis há perdas profundas: feridas telúricas que devoram o próprio homem. Aos gastos desmesurados em armamento bélico, opõe-se a condição
miserabilista da existência de milhões de pessoas. Este paradoxo é apenas outro indício da perda da razoabilidade da espécie humana.
Mas a revisitação aos actos praticados pelos humanos, documentados, só adquire sentido quando cada um de nós, munido de consciência e responsabilidade, se eleva através de uma temporalidade prospectiva e se pergunta: O que fazer doravante? Como actuar?
E não é por acaso que ouvimos uma voz, insistente e repetidamente, no filme que poderia muito bem ser a da nossa consciência moral, dizer: “É tarde de mais para ser pessimista. É urgente agir”.
Há uma exigência ética fundamental: a de repensar esta ruptura que o ser humano operou com os valores nobres e vitais. Não só como forma de recuperar o equilíbrio exterior ou ambiental, como também a interioridade perdida.
Estaremos a tempo de inverter estas duas tendências correlativas: a da nossa crescente desumanização e a do suicídio assistido que lentamente fomos
inflingindo ao Planeta?
Elsa Cerqueira
Casa da Cultura e da Juventude, 8 de Julho de 2009
[1] Bill
Deval e
Georges Sessions