
Mule de Escorpião Azul - Matosinhos
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
Escorpião às ComprasA história que agora conto passou-se há muitos anos, quase vinte e cinco, e é
paradigmática do que é Ser Escorpião.
Quem nunca contactou com escorpiões por certo não sabe desta sua característica, absolutamente estrutural, e que passa por ser, para o bem e para o mal, absolutamente senhor do seu nariz. No meu caso é para o bem, que eu sou um escorpião pacífico.
Pois nesse dia longínquo, este Escorpião Azul passeava-se pelo Brasília, qual rapariguinha do
shopping, e eis que o seu olhar fica preso a umas maravilhosas sandálias na montra de uma sapataria.
- São lindas, não são A.?
- Não, não são. - responde o A., igualmente um escorpião dos sete
costados.
Pedi auxílio a dois cunhados que nos acompanhavam e que igualmente se encarregaram de me dar, imediatamente, com o nariz para trás, usando adjectivos como "horrorosas" e outros mimos que tais, e eu a pensar "Porra, então eu não estou mesmo a ver que são lindas?"
Entrei.
Experimentei-as.
Pezinho para trás e para a frente, confortáveis q.b., lindas, bolas! E os meus acompanhantes sem calar a matraca com uns "São simplesmente horrorosas! Deu-te um ataque de mau gosto! Mas que sandálias horríveis!" E blá, blá, blá...
Será, Anabela Maria? Será que tiveste um ataque de mau gosto assim para o de repente?
-Muito obrigada - disse eu para a empregada. - Vou pensar. - E saí porta fora c
ismada na coisa.
Estaria mesmo com um ataque de mau gosto? Seria possível? Eu, a sóbria, que a cada passo calçava os meus sapatinhos de cristal, um
transparente, lindo, e o outro azul, de um azul lindo de morrer?
Caminhámos até ao carro, estacionado à porta do Brasília. Os meus acompanhantes entraram... e eu ainda iniciei a entrada... mas voltei atrás. Decidida lancei um "Volto já! Esperai por mim!" e lancei-me numa corrida, quase um voo, em direcção à sapataria.
Comprei-as. E entrei no carro, que me traria de volta a casa, agarrada à caixa das minhas sandálias, lindas, escutando os risos do A., escutando os seus "Já sabia!" de quem já me conhecia, e compreendia, como mais ninguém.
Ainda as conservo. Típico. Típico de um escorpião fiel.
E ainda hoje as uso.