quarta-feira, 9 de maio de 2007

Coisas Interrompidas




Coisas Interrompidas

Detesto coisas interrompidas, empreendimentos suspensos, o limbo (é verdade, o papa acabou com ele, não foi?) do nem sei se é, nem sei se foi, nem sei se faça, os mal entendidos, as situações dúbias e mal esclarecidas, os equívocos. Por norma, tomo as minhas decisões previamente e, depois de tomada a decisão, "nem que a vaca tussa, nem que chovam canivetes", mesmo que a mim me doa e me custe, o empreendimento é para levar até ao fim.
Ora eu tenho uma visita ao Mali no limbo (curioso, agora que o papa acabou com o limbo apetece-me mesmo falar dele!).
No Verão passado fiz uma viagem cujo objectivo era ligar Amarante a Bamako, capital do Mali. Mas a velharia do nosso jeep chegou ao Sahara Ocidental sem turbo, o que alterou completamente os nossos planos. Bye bye descida da Mauritânia pela praia, bye bye visita ao meu amigo António Araújo, Director do Parque Nacional do Banco de Arguim (http://www.mauritania.mr/pnba/), bye bye Mali, bye bye Bamako. Visto, para que te quero?
Já foi uma sorte termos chegado a Nouakchott, capital da Mauritânia.
As aventuras das nossas idas aos mecânicos, em Nouakchott, vão dar outro "post" quando me apetecer falar disso.
Apesar dos contratempos, a viagem foi espectacular... deserto abaixo, sem compromissos, sem nada marcado, primeira noite em Nouadhibou acampados na cobertura plana de uma casa-albergue... um mar de areia sem fim, sem fim mesmo, porque depois ainda restavam os milhares de quilómetros para cima, até Amarante.
A velharia do Jeep não aguentou. Pifou já em Marrocos, entre Tarfaya e Tan-Tan e obrigou-nos a uma noite passada em pleno deserto, felizmente mesmo à beira mar, num sítio belíssimo, sobre umas salinas. Eu e o A fomos "evacuados" para Portugal de avião, os nossos companheiros de aventura, E e P, que tinham mais disponibilidade de tempo, mandaram-se para Essaouira de táxi e saíram de lá dois ou três dias depois, de autocarro, misturados com os marroquinos, tendo chegado ao Marco de comboio.
O meu querido amigo Helder Colmonero, sabendo disto e sabendo que eu preciso de anexar umas fotografias da mítica Tombuktu, no Mali, a uma apresentação de PowerPoint, mandou-me as suas espectaculares fotografias do Níger, de Bamako, de Tombuktu, do país Dogón, aonde ele chegou após um ou dois dias de marcha, pois felizmente há lugares no planeta onde ainda não há estradas, nem hotéis em regime de tudo incluído, nem turistas ingleses pelas ruas, de garrafa de cerveja na mão, nem divertimentos mesmo mesmo pensados para matar o tédio do bicho turista que está meio histérico, meio sem rumo e sem referências, e que não se suporta a si próprio, nem suporta a passagem do tempo!
Ora estes são os lugares muito especiais para mim, porque muito diferentes. Estes são os locais que me interpelam, me põem a olhar bem para o interior de mim mesma e a pensar, me fazem reajustar valores e prioridades e são aqueles que me obrigam a colocar os dois pés bem assentes sobre a terra.
Se é que algum dia os tive no ar!
É, um dia destes vou ter de tirar o Mali do limbo! Obrigada Helder.

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