segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Quanto Vale Uma Árvore? (Em Amarante)

Árvores Abatidas - Amarante
Fotografias de Artur Freitas

Quanto Vale Uma Árvore? (Em Amarante)

Parece uma epidemia que atacou Portugal de lés a lés e Amarante não escapou a esta sede de abate que parece não ter fim. Pelo caminho justifica-se o abate com doenças, perigos vários, até ordenação  longe do científico e ainda pela necessidade de poupança de água.
Valham-nos os deuses todos que isto já não vai lá só com um!

O post que hoje partilho foi surripiado inteiramente no mural do senhor coronel Artur Freitas, a quem agradeço se já a cortesia.

EXPRESSO Economia à Sexta 
07.12.2018 às 22h15

QUANTO VALE UMA ÁRVORE? 

Sandra Maximiano 

Em Portugal, nas cidades, abatem-se árvores como se cortam ervas daninhas. Algumas mesmo centenárias e autóctones, mas “irrelevantes” para projetos de reabilitação das cidades, muitos dos quais se cingem a espaços de estacionamento. Destroem-se pequenos jardins, ora porque há insetos, ora porque há mais alergias. Em Lisboa, desde 30 de novembro de 2017 que está em vigor o regulamento municipal do arvoredo. No entanto, continuam a acontecer situações que desrespeitam este regulamento. Por exemplo, em várias zonas da cidade, as caldeiras das árvores são calcetadas, comprometendo a sobrevivência das mesmas.
Gosto muito de árvores, respeito-as pela sua longevidade, imponência, capacidade de sobrevivência e até pela sua “estranha” forma de comunicação. São poucos os dias em que não olhe para as vicissitudes de um tronco e que não lhe passe a mão para sentir a textura. Depois, há ainda o cheiro e as cores, e as folhas de árvores caducas que me marcam o passo e me servem de agenda. Poderia encher páginas de razões para tal amor, mas tenho consciência que há assuntos para os quais o amor de uns dificilmente se sobreporá à indiferença de outros. Por isso, escrevo antes sobre racionalidade económica e dinheiro, e sobre a falsa dicotomia entre economia e meio ambiente.
É inegável que as árvores nos espaços urbanos têm custos de manutenção e ocupam um espaço que é, cada vez mais, milimetricamente valioso. Mas não é menos verdade que as árvores criam bastante valor. Os benefícios, no entanto, tendem a ser subestimados e até negligenciados, porque não são facilmente calculados como o são as despesas com jardineiros, produtos e máquinas. Os espaços verdes são essenciais para a saúde física e mental e para a criação de comunidades mais inclusivas e coesas através da partilha do espaço comum. As árvores contribuem para a redução do ruído, para a purificação do ar e para a minimização do risco de inundações. Por exemplo, uma árvore adulta, grande, pode conseguir absorver cerca de 150kg de dióxido de carbono por ano, filtrar pequenas partículas poluentes e absorver cerca de 5000 litros de água por ano. Mais, as árvores permitem reduzir os custos energéticos. De acordo com estimativas do gabinete Urban and Peri-urban Forestry das Nações Unidas, as árvores têm a capacidade de reduzir a temperatura atmosférica entre 2 a 8 graus centigrados. Se forem plantadas perto de edifícios, podem reduzir o uso de ar condicionado em 30% e o uso de aquecimento entre 20 e 50%.
Algumas cidades norte-americanas, Portland, Nova Iorque, Tampa, Milwaukee e Atlanta, quantificaram o valor de árvores urbanas, como pinheiros, palmeiras, oliveiras e carvalhos. Por exemplo, o departamento de parques da cidade de Nova Iorque estimou os benefícios em cerca de 120 milhões de dólares por ano, sendo os custos anuais cerca de 22 milhões de dólares. Entre os benefícios, calculou-se 28 milhões de dólares em poupança de energia, 5 milhões de dólares em melhoria da qualidade do ar e 36 milhões em poupança de custos com inundações causadas por tempestades.
Para além dos benefícios públicos, as árvores e os espaços verdes têm um impacto positivo sobre os valores das propriedades residenciais e comerciais. A maioria dos estudos, norte-americanos e europeus, foca-se na variação de preços de venda das propriedades em relação a determinadas variáveis como a localização, dimensão da propriedade, características da zona, acesso a transportes, espaços desportivos, espaços verdes, etc. Estes estudos têm, consistentemente, desde os anos 70, mostrado que a presença de árvores e arbustos aumentam os preços de venda das casas em cerca de 6 a 9%. Dependendo do valor das casas, esta percentagem pode contribuir significativamente para as receitas de impostos sobre propriedades.
Geoffrey Donovan e David Butry, investigadores do departamento de Agricultura dos Estados Unidos, têm conduzido vários estudos de quantificação dos efeitos de árvores urbanas. Por exemplo, o impacto da presença de árvores no preço dos arrendamentos foi estimado em cerca de 1000 casas em Portland e verificou-se que a existência de uma árvore nas proximidades pode aumentar o preço da renda entre 5 a 21 dólares dependendo da localização da árvore. Mais, um outro estudo, também com dados de Portland, mostrou que a acessibilidade a espaços comerciais aumenta em média o valor das casas em 3500 dólares numa zona sem árvores e cerca de 22000 dólares numa zona com árvores. Estes estudos têm contribuído para que, em alguns casos de abates de árvores levados a tribunais norte-americanos, hajam compensações monetárias aos proprietários por perda de valor das casas.
Estudos na área da neurociência têm mostrado que a visualização de espaços verdes, aciona uma zona no nosso cérebro relacionado com a empatia e o altruísmo. Mais, um estudo realizado em Chicago por Frances Kuo e William Sullivan da Universidade de Illinois mostrou que residentes em zonas mais verdes exibem menos tendências agressivas, menos violência e menos fadiga mental. Este estudo, controlou para possíveis efeitos de seleção porque baseou-se numa experiência de campo, onde os residentes foram distribuídos aleatoriamente por casas sociais, semelhantes, em bairros em tudo muito parecidos, exceto que algumas casas estavam em zonas mais verdes.
No que respeita aos efeitos na saúde, há vários estudos que mostram os efeitos positivos da existência de mais espaços verdes e até a capacidade destes espaços minimizarem os problemas de saúde relacionados com a pobreza. Mas viver em zonas verdes, com árvores, oferece não só vantagens reais, mas também percecionadas. Por exemplo, um estudo de Marc Berman, atualmente professor na Universidade de Chicago, mostrou que ter 10 ou mais árvores numa determinada área residencial em Toronto aumenta a perceção de saúde e bem-estar. Mais precisamente, o efeito de ter 10 ou mais árvores foi estimado ser equivalente a ter mais 10000 libras no rendimento anual.
Dado o valor económico que uma árvore tem, quer a nível público, quer privado, é de certa forma surpreendente que grupos cívicos como o Fórum Cidadania Lx e a Plataforma em Defesa das Árvores não consigam mobilizar muitos mais cidadãos para que se evitem abates catastróficos de árvores. Sinceramente, penso que mais do que apelar a consciências ecológicas e éticas, e juntar apaixonados incondicionais por árvores, estas plataformas podem ganhar mais dimensão, enquanto grupos de interesse e de pressão, quanto mais passarem a mensagem que defender uma árvore urbana, no fundo, é um investimento lucrativo.

(imagens da RAZIA EM AMARANTE)

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