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quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Outro Discurso de João Miguel Tavares no 10 de Junho


O Outro Discurso de João Miguel Tavares no 10 de Junho 

Afinal havia outro. outro discurso. Igualmente importante. Já li das coisas mais incríveis sobre o teor do primeiro discurso feito por João Miguel Tavares, em Portalegre. Que era fascista, colonialista e eu sei lá mais o quê que elas já foram tantas e eu, farta de reler o dito discurso, nada lá encontro de semelhantes aberrações.
Retiro um extracto do segundo discurso que pode ler na íntegra se clicar aqui. Foi proferido no Mindelo e, a crer na notícia, parece que atrapalhou dois presidentes.

(...) Há apenas 45 anos Cabo Verde era ainda parte de Portugal. Estarmos aqui hoje, menos de meio século depois, numa cerimónia como esta, quando há gente ainda viva que lutou pela independência e sofreu pela sua ausência, demonstra a todos, portugueses e cabo-verdianos, que profundos são os laços que se criam e desenvolvem entre os povos, mesmo quando manchados pela escravatura, pelos trabalhos forçados ou pelo racismo.
Estamos juntos apesar do nosso passado. E estamos junto por causa dele.
Aquilo a que chamamos colonialismo tem implicações mais profundas do que a violência sobre os corpos. É também uma violência sobre a memória, com gerações e gerações condenadas ao esquecimento, porque a História que sobrevive é sempre a história do dominador e não a história do dominado. Erguer um novo país implica quebrar esse monopólio da memória e reconstruir tudo: criar uma História própria a partir de frágeis fragmentos; procurar uma identidade autónoma por debaixo dos escombros de um regime opressivo. (...)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Discurso de João Miguel Tavares do 10 de Junho


O Discurso de João Miguel Tavares do 10 de Junho

Foi o discurso do dia. Foi emitido em directo e foi o que valeu a João Miguel Tavares pois nos noticiários... só rasto dele, em alguns deles apenas um muito ténue rastinho... mas que vergonha!
Aconselho o seu visionamento atento a todos os meus leitores. Que palavras lindas!
Eu, que também gostaria de as ter dito cara a cara aos políticos sentados no camarote, agradeço esta beleza de discurso que corresponde integralmente ao meu sentir.

Nota - Link para o discurso escrito - https://www.publico.pt/2019/06/10/politica/opiniao/deem-nos-alguma-coisa-em-que-acreditar-1875954?fbclid=IwAR03eHJ6XhkCrZ6vQpuPB-Fxvt2c3K3gC4LJ_YeD-6YjOXSrLeViPOaGkB8

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A Palavra ao Geógrafo Álvaro Domingues - "Ninhos de falcões e outras demolições"


A Palavra ao Geógrafo Álvaro Domingues - "Ninhos de falcões e outras demolições" 

"Em tempos de erosão do Estado e das coisas públicas, as políticas e o dinheiro de todos deviam aplicar-se em coisas realmente necessárias.
(...)
Fique pois a dita cidade. Faz-se de conta que a árvore é a floresta e toca de gastar à tripa forra, descriminando os espaços históricos (os outros estão fora da história) para que a lavoura imobiliária privada venha aproveitar mais-valias que o dinheiro público generosamente espargiu. Os outros que continuem nos seus lugares feios, com seus centros comerciais, armazéns, fábricas, estradas, casas e vias rápidas e tudo que é o normal da urbanização mais coisa menos coisa. Quando quisessem vir à cidade, a verdadeira, a civilizada, encontrariam as coisas belas, as ruas granitadas, as floreiras, os candeeiros, o ambiente sustentável e ciclável, as estátuas, as ruas de peões, melhor do que ir ao Portugal dos Pequenitos ou à Disneylândia.
(...)
O que eu queria dizer é que em tempos de erosão do Estado e das coisas públicas, as políticas e o dinheiro de todos se deviam aplicar em coisas realmente necessárias. A política urbanística fazia parte dessa res publica. Não haverá em Viana do Castelo onde gastá-lo? Já experimentaram ir visitar o hospital e ver em que condições funciona? Não era de aplicar lá uns trocos? Agora diz que o gabinete de arquitectura que tinha projectado o mercado que iria para o terreno do Coutinho (por sinal, profissionais premiados, estimados e apreciados pelas suas obras) foi despedido e trocado por outro (não se sabe porquê) para se aplicar intensamente em construir mais uma atracção para a disneylândia histórica.  Estou mais agoniado que a Senhora d’Agonia. Quero uma mordoma com os peitos ourados. Por falar nisso... e o Prédio Coutinho feito arte urbana com uns cordões, filigranas, rendas, riquezas de Viana para a selfie do turista?"

Nota - Pode ler este texto na íntegra, clicando aqui. Tem um ano, permanece mais actual do que nunca.

domingo, 18 de setembro de 2016

A Palavra a Almada Negreiros


Porta Aberta Sobre o Largo de S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães


A Palavra a Almada Negreiros



Hoje volto a uma postagem de Novembro de 2013 para dar a palavra, exemplar, a Almada Negreiros.

MANHA E FALSO PRESTÍGIO

Os dois males de que sofre a vida portuguesa

Há, sim senhor!
Há um Portugal sério, um Portugal que trabalha, que estuda; curioso, atento e honrado! Há um Portugal que não perde o seu tempo com inimigos fantásticos e cujo único desejo é apenas e grandemente ser Ele próprio! Há um Portugal, o único que deve haver e que afinal é o único que não anda por causa dos vários Portugais inventados de todos os lados de Portugal! Há um Portugal profissionalista, civil e insubornável! Há, sim meus senhores!
Mas entretanto…Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falso prestígio. É o que mais há agora por aí em Portugal: os falsos prestígios.
E vai-se dizer de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa, é só nossa! Não há nenhum português, nem o escolhido entre os melhores, que não tenha forte parte nesta culpa. Porque os portugueses, os bons, os melhores, os sérios, os inteiros, enfim os portugueses (se se entendesse bem esta palavra) não sabem, ou melhor, não desejam lutar contra a manha dos que chegam a ser ou favorecem os falsos prestígios. Ora, a maneira de lutar contra a manha não é manha e meia, antes pelo contrário, é a de detestá-la absolutamente, e mais, desmascarando-a publicamente e ali mesmo. Senão ouvi: É completamente impossível esmerar-se cada qual apenas no que produz de correcto dentro da sua profissão. Para que fosse possível seria necessário que o conjunto colectivo correspondesse de facto à qualidade de toda e qualquer profissão. Impossível aqui em Portugal. O momento tem a realidade imperativa do seu instante. Aqui não se distingue o correcto do impróprio. É necessário vir explicá-lo na praça pública.
Todo aquele que cuide que lhe bastará para progredir na sua profissão o ser probo nos seus estudos e produções, engana-se terrivelmente, pois que lhe falta ainda e sobretudo o seu dever cívico de encarreirar as gentes e livrá-las dos glosistas, pasticheurs e até mixordeiros de toda e qualquer profissão. É urgente e actualíssimo vir até ao público e denunciar-lhe como o comem por parvo com falcatruas, e lhe dão gato por lebre.
Efectivamente o único complicado aqui é a maneira de liquidar os manhosos. É complicado porque eles escapariam até aos gases asfixiantes! É complicado porque eles conhecem a fundo e melhor do que ninguém como funciona a superstição sentimental das gentes e, confessamo-lo, servem-se dela admiravelmente. Tão admiravelmente que ganham sempre com as recansadas fórmulas que ainda são inéditas para tantos: oficiais do mesmo ofício, invejas, concorrências, etc… evitando simplesmente a polémica técnica e a discussão do mérito. E francamente, eles não deixam de ter carradas de razão, carradíssimas de razão ao confiar em que isso do mérito em Portugal é questão de cara ou coroa. Pois apesar disso ainda fazem batota por cima. Por cima, não, por baixo: de cócoras, beijoqueiros, manteigueiros e por último descarados. Um autêntico e constante desfile de atropeladores à coca do lugar de falso prestígio. E chegam lá. Depois rebentam.
A culpa de ser a nossa querida terra tão propícia à vegetação dos manhosos e à arribação dos falsos prestígios, essa culpa é incomparavelmente menos misteriosa do que possa parecê-lo à simples vista. Ela não está na inocência dos simples e dos leigos que servem sem querer e sem saberem de trampolim elástico para o salto mortal dos cambalhoteiros. A culpa, meus senhores, é de nós todos e sobretudo nossa. Nossa porque tivemos sempre muitíssima mais razão do que serenidade para dizermos com toda a claridade a razão que temos. Esta nossa falta de serenidade tem sido, oiçam-nos bem, meus senhores, a grande vantagem, a maior de todas, e da qual os manhosos melhor se servem para acabar de convencer o público lá pelos seus processos nada invejáveis. Este terreno é deles e são naturalmente dos maitress chez soi. Façamo-los vir para o nosso. E não esqueçamos tão pouco que eles sabem muito bem que o público se convence melhor com o sonoro do que com o mudo. Sejamos, pois, tão sonoros como eles mas nitidamente contrários.
Declaremos a guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inimizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra e faz medrar a marmelada nacional. E, sobretudo, com toda a serenidade, lancemo-nos definitivamente ao ataque dos manhosos e dos prestígios, esta vergonha maior de Portugal, e que seja tão nítido o nosso ataque, tão clara a nossa razão e tão serena a nossa atitude, que, nunca mais aconteça o que até aqui, em que a nossa indignação e protesto eram movidos com tão justo calor português que nem se davam conta das falhas que arrasta consigo a serenidade, essas falhas legitimamente nossas e que as sabem tão bem pescar os manhosos, ou como diz o povo, os aldrabões!
A verdade é esta: o nosso combate aos manhosos até hoje teve o triste resultado de se poder confundir com o dos caluniadores e dos invejosos. Façamos grandemente atenção a isto mesmo e teremos liquidado o último recurso dos manhosos. Estamos a nós próprios um desaire a que estão sujeitos os caluniadores e os invejosos, os quais são, bem contrariamente, o único gás com que afinal sobe de verdade o aeróstato do falso prestígio!
Conheceis certamente aquela história da Antiga Grécia, onde um homem que tem de castigar um escravo é tomado de ira, de tal maneira que é forçado a suspender o castigo, dizendo-lhe: o que a ti te vale é eu estar tão irado, senão, se eu tivesse serenidade neste momento, não perdias nenhuma das que eu te queria dar.
Ora, meus senhores, nem toda a gente é susceptível de dispor de serenidade, e os menos susceptíveis de todos são francamente os manhosos.

José de Almada Negreiros
in Diário de Lisboa de 3 de Novembro de 1933

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Palavra ao Papa Francisco


A Palavra ao Papa Francisco

Já não é a primeira vez que dou a palavra ao Papa Francisco neste blogue. A propósito do despropósito da Antiga Praça de S. Pedro agora transformada em Praça Muito Mais do que Medonha e em que o citei numa frase de assombrosa inteligência e clarividência mas cuja compreensão parece não estar ao alcance de todos, inclusive ao alcance de todos os não católicos, católicos e mesmo ao alcance de todos os que militam dentro do clero e que, por isso mesmo, volto a citar, esperando, sinceramente, que alguma luz se faça dentro de algumas cabeças.

"A convivência pacífica entre as diferentes religiões vê-se beneficiada pela laicidade do Estado, que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença o factor religioso na sociedade"

E hoje volto a recorrer ao Papa Francisco, agora a propósito do despropósito desta discussão entre ensino público e privado para sublinhar, mais uma vez, a sua clarividência e inteligência a propósito de muitos assunto, incluindo deste.

El Papa alertó sobre "Corrupción educativa" de escuelas privadas



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Palavra a Paulo Guinote



A Palavra a Paulo Guinote

Antes de hoje dar a palavra ao Paulo Guinote, aproveito a ocasião para fazer referência a um blogue da sua autoria, A Educação do meu Umbigo, que o Paulo encerrou no passado dia 26 de Março.
Confesso que entendo perfeitamente as razões do seu desencanto. Aliás, já o percepcionava nos seus últimos textos, aqui e ali latente a sua falta de pachorra para comentar de novo um atropelo educativo, a sua irritação em comentar de novo um desrespeito total e absoluto para com a classe docente deste país, à qual ele pertence, tal como eu. Apesar disso, desta percepção, confesso que fiquei a olhar para aquela mira, que ele escolheu como imagem simbólica para o encerramento do seu, mas também nosso, blogue, com um misto de incredulidade e sensação de perda. O blogue do Paulo faz-me falta. Já era o único que eu seguia diariamente e concordando mas também discordando das suas opiniões, lia-o todos os dias, quase sem falhar pitada, desde pelo menos os inícios do ano de 2007, altura em que abri o meu Anabela Magalhães.
Ele diz que o encerrou, que encerrou o Seu Umbigo. Eu espero que ao invés de um encerramento este momento sirva, tal como uma pausa lectiva, para retemperar forças e que ele volte com a energia de sempre para as batalhas que teremos de enfrentar ainda e que continuarão a ser muitas.
Por último, quero deixar um agradecimento público ao Paulo Guinote, com quem só me encontrei fisicamente uma vez na vida e muito de passagem mas que está mais próximo de mim e mais presente na minha vida do muitos outros professores com quem eu contacto diariamente, um agradecimento enorme, gigante mesmo!, pela paciência, pela partilha, pelo tempo roubado a muitos outros interesses seus, família incluída, pelas opiniões, pelas explicações, pela inquietação, pela energia, pela inteligência, pela piada, pela fina ironia, enfim, pela Sua Vida parcialmente partilhada.
Volto a confessar - O Umbigo Dele faz-me falta. Sinto-me até um bocadinho orfã, blogosfericamente falando...

Até já, Paulo Guinote?

O ministro implodido


Nuno Crato, o ministro que ia implodir, implodiu-se.

O actual ministro da Educação fez como sua a bandeira da implosão no que ao poder da estrutura burocrática do MEC diz respeito. Segundo ele, na esteira de outros ex-ministros ao que parece muito traumatizados pela experiência, seria indispensável que o ministério aligeirasse essa estrutura e reduzisse o seu poder. Para além do que de populista tinha a ideia e de problemas práticos a sua implementação, era muito importante que o ministro soubesse exactamente o que pretendia fazer.
Infelizmente, o que se passou foi que a dita implosão foi feita sem qualquer nexo e em vez de eliminar procedimentos supérfluos, apenas os redirecionou e centralizou nas direcções-gerais que mudaram apenas de nome. Mais grave, um ministro que não conhecia bem ao que ia, que desconhecia os meandros do funcionamento do ministério e que rapidamente perdeu qualquer vontade de os entender, apenas querendo que lhe aparecesse pela frente quem prometesse a resolução rápida de qualquer problema existente ou por aparecer, por muito complicado que fosse, acabou por estar na origem do sistema mais feudalizado de sempre no MEC.
O feudalismo, que antes existia no plano das relações feudo-vassálicas de tipo partidário e que ele tanto criticara, cristalizou-se com um sistema de administração e gestão escolar baseado na hierarquia e nomeação ao mesmo tempo que ganhou uma nova dimensão que foi a emancipação dos suseranos administrativos em relação ao topo da hierarquia política, a qual parece ter optado por implodir-se a si mesma, com um ministro a aparecer apenas em último caso, com inexplicáveis sorrisos mediáticos a tentar fingir que nada é sua responsabilidade.
Os exemplos são múltiplos, sendo muito graves os que resultam dos ziguezagues da DGAE em relação à contagem de tempo de serviço para efeitos de concurso ou o regime jurídico das faltas por doença ou aqueles que envolveram os disparates relacionados com a Bolsa de Contratação de Escolas e o concurso de professores para o presente ano lectivo. Ao contrário da teoria da implosão, as chefias administrativas feudalizadas e sem qualquer coordenação ou orientação política visível, começaram a funcionar em roda livre e a fazer circulares sobre circulares e a pressionar as escolas e suas direcções para a aplicação de interpretações dos normativos que chegaram a mudar em menos de 24 horas.
Mas o caso que considero mais grave é mesmo o do “autónomo” IAVE que parece ter-se constituído como uma zona de poder intocável e o seu presidente o verdadeiro líder da política de avaliação do MEC, seja dos alunos, seja dos professores, com especial destaque para a Prova de Avaliação de Capacidades e Competências, seja da introdução e expansão dos exames made in Cambridge.
É em meu entender completamente inaceitável e mesmo impensável que um dirigente de um organismo público, mês o que autónomo, produza as intervenções públicas que o presidente do IAVE produz, enquanto esse organismo pauta a sua acção por uma profunda opacidade e por uma total desresponsabilização em relação às suas falhas e às sucessivas alterações de rumo, fazendo da legalidade um mero obstáculo a ultrapassar com mais uma portaria encomendada à tutela.
Não falo dos já tradicionais erros anuais em exames e provas finais, mas cuja autoria e elaboração parecem segredos de Estado, excepto nas escolas em que há quem use do estatuto do colaborador do IAVE para exibir uma autoridade extra e um estatuto especial. Falo da total opacidade acerca das equipas que produziram as provas para a avaliação de outros professores, sem que saibamos quem as escolheu, como as escolheu e que critérios foram seguidos. Falo ainda do total desrespeito demonstrado em relação aos professores de Inglês da rede pública de ensino, ao obrigá-los a ser funcionários de uma entidade privada externa com quem o IAVE, com o provinciano (terceiro-mundista?) aval do MEC, estabeleceu uma parceria público-privada que produz receita à custa de uma certificação impingida aos alunos e suas famílias, mas recusando-se a remunerar as tarefas associadas à classificação das provas em causa.
O estatuto de potentado feudal que não responde a qualquer autoridade, bem como a completa imunidade a qualquer responsabilização pelas falhas, que ganhou o IAVE só é compreensível num MEC em que a direcção política desapareceu, entediada, e se limita a esperar pelo fim do mandato e pelo que num futuro próximo possa surgir para compensar tamanho ordálio. Nuno Crato, o ministro que ia implodir, implodiu-se. E como parece que há uma espécie de lei da física sobre o horror da matéria ao vazio, alguém foi tomando o seu lugar, sendo vizir em lugar do vizir.
Professor do 2.º ciclo do Ensino Básico

terça-feira, 24 de março de 2015

A Palavra a Luís Costa



A Palavra a Luís Costa

Não é chuto, é transição responsável!

Corria o ano letivo de 1979/80 ― o meu primeiro nestas andanças do ensino ― quando ouvi falar, pela primeira vez, do "fim das reprovações". Foi em Montalegre. Um delegado do Ministério da Educação, que andava, de escola em escola, em "missão diplomática", foi lá sugerir-nos que abríssemos mão do "tradicional" rigor, pois, segundo ele, pelo caminho que as taxas de reprovação levavam, um dia o Estado deixaria de ter dinheiro para pagar tal despesa, e poderia mesmo ter de tomar medida radical enunciada. Fez-se-me luz! Desde então que eu sei quanto a casa gasta.

Vem isto a propósito da prometida crónica dedicada às declarações públicas de David Justino sobre esta problemática. Pelos vistos, são oportunas, pois o Estado parece ter chegado ao "fim do dinheiro". Todavia, há um ligeiro desvio no objeto da reflexão: afinal, ao contrário de Paula Teixeira da Cruz, que debita, a título pessoal, ideias sobre o seu pelouro, as afirmações do Presidente do CNE decalcam, na forma e na substância, o texto da "Recomendação", de fevereiro passado (que Mário Nogueira, em declaração de voto, diz ter votado "sem quaisquer restrições").

Nunca tinha lido uma publicação desta índole (sim, confesso a minha ignorância). Certamente devido a isso, estava à espera de algo muito mais desenvolvido, mais fundamentado e mais profundo. Fiquei surpreendido com a simplicidade (logo eu, que tanto a aprecio). Contudo, foi acre a leitura. Devo ter-me tornado um resistente incurável, um veterano desconfiado de tudo e de todos. Estes anos de constante vigília, de "armapena" sempre em punho, devem ter feito de mim um lobo, pois já quase nada me parece confiável. Só os meus olhos, só os meus ouvidos, só o meu instinto… Lamento dizê-lo, mas, nesse documento… só farejei demagogia, engodo para ingénuos e populismo quanto baste: é a genuína solidariedade com os jovens mais pobres e com os provenientes do estrangeiro; é a sincera preocupação com os comportamentos indisciplinados que a retenção potencia; é a brilhante ideia de que a "transição responsável" (não é administrativa, portanto) traz maior exigência ao processo; é a cenoura-miragem da flexibilização do currículo; é a "eduquesa" desvalorização da "nota"; é a redonda tecla (encravada) da mobilização e capacitação dos professores; é a dramática e coruscante conceção dos professores como principais atores do sistema educativo (de cinema mudo, digo eu); é a sempiterna ideia de comprometer os alunos e as famílias (tão parecido, em corpo e alma, com as atas de conselho de turma); são os miraculosos "programas contextualizados de combate ao insucesso e de melhoria das condições de ensino e aprendizagem"; é a epifania da eliminação da obrigatoriedade de afixação pública das pautas de avaliação… Um nunca-acabar de pérolas de iluminismo histórico, social e pedagógico. Seria tão bom, se fosse verdade! Infelizmente, os meus olhos selvagens apenas divisam dois nítidos propósitos nesse documento: estender uma passadeira vermelha à Senhora Municipalização e acabar com esse desperdício de verbas gastas com a retenção. O resto é, para mim, mera "conversa".

A leitura das dezoito páginas da "Recomendação" causou-me asia, sobretudo o ideário destinado a diabolizar a retenção, exacerbando os traumas e o estigma por ela provocados. Para mim, como para muitos dos meus colegas ―"atores principais" que nada percebem disto e cuja opinião nunca conta para nada ― era perfeitamente previsível o aumento das taxas de retenção (e não falemos do insucesso real, porque então…). A partir do momento em se começou a desautorizar os professores, a concentrar neles toda a responsabilidade de tudo o que de mal acontece nas escolas e a "castigá-los", com reuniões em série e torres de papelada justificativa, sempre que têm de exercer a disciplina ou atribuir um nível negativo a um aluno; a partir do momento em que as faltas dos alunos passaram a contar apenas para o aumento do trabalho administrativo dos diretores de turma; a partir do momento em que a indisciplina começou a ser maquilhada; a partir do momento em que os alunos perceberam que pouco precisam de fazer para passar de ano… ficou tudo dito. E como não estamos na Finlândia, nem na Suécia nem na Austrália (estamos em Portugal, o país onde muiiiiiiiitos encarregados não obrigam os filhos a frequentar os apoios educativos, ignoram os recados enviados na caderneta e vão mais depressa à escola para recuperar o telemóvel do filho, para se queixarem dos professores ou para os agredirem do que para saberem o que os educandos andam a fazer), era de esperar que os catraios passassem a adotar um estilo
négligé, deixando na espreguiçadeira as verdadeiras capacidades do seu cérebro. Quando se baixa a fasquia (qualquer educador sabe isto) os jovens baixam imediatamente o interesse, o empenho e até o respeito. É, infelizmente, o que tem acontecido nos últimos anos. É, infelizmente, o que vai continuar a acontecer (como bola de neve montanha abaixo), na prossecução deste caminho. Contudo, keep calm, porque a dita "transição responsável" não vai deixar que se note, assim à vista desarmada!

Não há nenhum professor que não deseje o sucesso pleno dos seus alunos. Mas o sucesso real. Temo ― toda a minha experiência de ensino me grita isso ― que o fim da retenção (como casa bem com a não afixação das notas!) traga o fim das expectativas escolares dos mais desfavorecidos. Como diz o texto do CNE (e como também diria Jacques de la Palice), são eles que dão corpo a essas taxas. Porém, será muito mais severa, para eles, a dita "transição responsável". Sabemos bem o que vai e o que não vai acontecer. É medonho! Só David Justino parece não saber (ou não querer saber). Não desejo ser professor nesse contexto (nenhum membro do CNE desejaria). Rejeito, em absoluto, esse vindouro papel de "principal ator" (de farsa, de comédia burlesca, de drama ou de tragédia).
Não quero que os espetadores me cuspam na cara!
Luís Costa

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Palavra a Raquel Varela

 
 A Palavra a Raquel Varela

"O que se passou com a justiça e a educação esta semana não foi um colapso informático ou um erro matemático de colocação dos professores. Isso é a aparência de um problema de fundo. Basicamente o país está a ruir, porque abaixo de um certo nível de trabalhadores, investimento e recursos, humanos e técnicos, a produtividade cai em queda livre. Há problemas sérios e generalizados de desemprego massi...vo que emperram a cadeia toda de serviços prestados. É difícil no espaço limitado do facebook sustentar tudo o que se diz. Mas há anos que alertamos – e temos tornado os dados acessíveis em publicações - para a massiva substituição de força de trabalho qualificada, experiente, com salários razoáveis, por força de trabalho desmoralizada, com baixos salários, exausta e escassa. Em nenhum país do mundo em nenhuma época histórica este modelo funcionou no que à eficiência diz respeito. Ele funciona na remuneração de títulos da dívida, o resto colapsa e vai continuar a colapsar."
 
Nota - Texto surripiado aqui.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Perco-me... Encontro-me...



Auto-Retrato - Segóvia - Espanha
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães

Perco-me... Encontro-me...

"Vou e venho, perco-me por lá e encontro-me aqui."

Miguel Torga
 
Perco-me... Encontro-me...

domingo, 3 de agosto de 2014

Fotografar

Auto-Retrato em Reencontro Com a História - Ribeira - Porto
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
 
Fotografar

"Fotografar é colocar, na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração"

Gosto disto, H. Cartier Bresson!

Gosto da tua escolha, Gabriel Vilas Boas!

domingo, 26 de janeiro de 2014

A Palavra a Boaventura Sousa Santos

O Povo e os Impostos - Aqui e Ali Também
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
 
A Palavra a Boaventura Sousa Santos

"Os cortes que o Governo está a aplicar aos pensionistas são um crime organizado, cometido pelo Estado, um ato de terrorismo, contra o qual todos devemos lutar."

domingo, 19 de maio de 2013

A Palavra a Amadeo de Souza-Cardoso

Pintura Sobre Barco Moliceiro - Ria de Aveiro - Aveiro
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
 
A Palavra a Amadeo de Souza-Cardoso

"Aqui (Paris) respira-se, em Portugal abafa-se."

Amadeo, em 1907.

Lamento, Amadeo, passados mais de cem anos, e uns regimes políticos depois, continuamos a abafar por aqui.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Amadeo de Souza-Cardoso

Fotografia de Autoria Desconhecida
 
Amadeo de Souza-Cardoso

Quanto mais dele conheço mais o amo. Amo o seu olhar profundo e penetrante, as costas direitas com coluna vertical a condizer, o seu peito lançado para a frente, sem medos; amo a sua rebeldia, o seu pioneirismo, o seu arrojo, a sua determinação, a sua elevação da mediocridade geral, a sua procura de caminhos outros, de percursos novos, o seu querer fazer diferente, a sua necessidade imperiosa de afirmação. Amo este ser original, único, irrepetível, genial.
Por acaso, ou talvez não, escorpião dos sete costados. Por acaso, ou talvez não, nascido numa terra especial que já deu tanto ao país e que se chama Amarante.
Hoje, cito-o.

" Agora a minha idade é outra - resolver problemas e marchar, subir em cultura física, e espiritual e artística ao mais alto degrau, aproveitar desta vida o mais possível, pois que tudo é passageiro, e o céu outrora prometido já não seduz os homens modernos. Em arte estamos em absoluto desacordo. De resto estou-o também com os amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais que muita gente julga. Tudo quanto por aqui se faz é medíocre aparte várias coisas. Porque se eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas. Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair do vulgar - que pensem o que queiram, indiferente me é - eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral - eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro."

Amadeo de Souza-Cardoso

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ontem e Hoje

Fotografia de autoria desconhecida
 
Ontem e Hoje

Frase da filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na segunda metade da década de 1920), mostrando uma visão com conhecimento de causa:
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negoceia não com bens, mas com  favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que a sua sociedade está condenada."

Nota - Recebido por e-mail, com os meus agradecimentos ao João Sardoeira.

domingo, 27 de maio de 2012

O Que resta?

O Que Resta?

"(...) O que resta?
A coerência e capacidade individual para não ceder aos abusos e à conveniências da vidinha.
Resta pouquíssimo, portanto.
Mas pode ser que, do fundo do buraco (que ainda nem chegou) se consiga reerguer algo."


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Testes Intermédios

Testes Intermédios

"A derradeira medida de um homem não é onde ele se coloca em momentos de conforto e conveniência, mas onde ele se posiciona em momentos de desafio e controvérsia."

 MLK

Thanks, Miguel Rubim!
 
Creative Commons License This Creative Commons Works 2.5 Portugal License.