
Antes - Valado dos Frades
Fotografia de Hélio Matias

Depois - Valado dos Frades
Fotografia de Hélio Matias
Estilo SocratiésA maluqueira que se apoderou deste país e desta gente, em variadíssimos domínios, é notória e gritante.
Um povo distingue-se por muitas e variadas razões, específicas, quantas vezes únicas. A
arquitectura popular é uma delas e a cada passo deixa-me embasbacada, aqui e ali, por excelentes razões, confesso que mais ali do que aqui, apenas porque a vejo, frequentemente, mais acarinhada e sustentada ali, não porque a ache de maior qualidade.
A
arquitectura que resulta da cultura de um povo, da sua adequação aos terrenos, da sua adaptação aos materiais circundantes e disponíveis, da adaptação ao clima, aquela que brota da alma e da necessidade de construção de um abrigo, é tão importante, para mim, como a mais bela catedral gótica e ambas me fazem parar, meditar, reflectir,
interiorizar.
A falta de respeito, generalizada, que os portugueses demonstram pelo património que lhes foi legado pelos seus antepassados, é qualquer coisa de absolutamente nojento e asqueroso e que permanentemente me deixa de boca aberta perante crimes monstruosos de lesa património que são permitidos a torto e a direito neste país.
Foi o caso deste. Deste crime documentado pelo Hélio Matias, em Valado dos Frades, com fotografias separadas por apenas uns poucos meses, e publicadas
aqui, no seu blogue..
Antes um lar português, distinto, castiço, popular, típico e onde a alma de um povo parece levitar envolvendo a construção, dando-lhe até um toque de não sei o quê de magia.
Depois uma coisa de estilo socratiés, plástica, sem sabor, sem especificidade, sem distinção, horrorosa e sem alma que lá caiba, e que lhe valha, e que a salve deste estilo muito desenvolvido e apurado, pelo nosso inginheiro, por terras interiores de Portugal.
E apenas aproveito este exemplo exemplar para voltar a um tema tão caro para mim e que é o do espatifanço generalizado do meu país, de Norte a Sul, com uns oásis aqui e ali, valha-nos alguns ajuizados ou isto estaria tudo perdido, nas mãos de uns patos bravos que não param perante nada, nem ninguém.
Lamento que assim seja. Se pudesse passaria a minha vida a recuperar casas antigas, transmutando-as, que gozo!, mas mantendo-lhes o Ser, numa atitude de respeito pela memória de um povo que, por acaso, é o meu.
O Ser de uma casa, legado pelos que nos antecederam no território, não se mata. Acarinha-se.
Um povo que assim desrespeita a memória e o legado dos seus antepassados não pode ser flor que se cheire. Um povo que assim actua merece o estilo socratiés. E merece o próprio.