Homens e Mulheres Bestas Quadrados(as)
Juntos no essencial
Manuel Pina
O acaso pode ter inquietante objectividade. No mesmo dia em que cheguei, pela
TVnet, à notícia de que um juiz saudita,
Hamad Al-
Razine, defende o direito de os maridos muçulmanos esbofetearem as mulheres, descobri no "
El País" (seguindo um "
post" de João Tunes em agualisa6.blogs.sapo.pt) algumas das consignas que a católica Secção Feminina da Falange, organização típica do fascismo beato espanhol, dava às mulheres: "Se o teu marido sugere que tenham relações sexuais, acede humildemente, tendo sempre em conta que a sua satisfação é mais importante que a tua", ou: "Se o teu marido te pede práticas sexuais
incomuns, sê obediente e não te queixes".
Os pais da Igreja sempre atiraram sobre Eva a culpa da ruptura da incorruptibilidade original, partindo daí para a fundamentação da submissão da mulher, mera "costela" do homem ("Sobre ti subsiste a sentença de Deus", diz Tertuliano). Se há coisa em que os fundamentalismos católico e islâmico são duas faces de uma mesma moeda é a misoginia. Talvez, quem sabe?, possa começar por aí a "Aliança de Civilizações" que o Papa anda a pregar no Médio Oriente.
Li, confesso que sem surpresa, este texto de Manuel Pina.
Ocorre-me que o mundo das três grandes religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, sempre foi um mundo masculino, concebido e dirigido por homens desde a sua origem, o que se reflecte no papel absolutamente subalterno a que a mulher é votada por todas elas, sem excepção. Tendo todas elas a mesma origem, derivando todas do Judaísmo primitivo, enfermam todas do mesmo mal e reflectem um tempo, que eu recuso liminarmente daqui do século XXI, de Homem com Direitos, mulher com deveres.
Nascida dentro de uma família católica confesso que esta posição machista, que também é a da igreja católica desde as suas origens, sempre me incomodou enormemente. Quando cresci, e me informei, deparei-me com esta
subalternidade no papel reservado às mulheres, que atravessa estas três religiões, sem excepção, e que me impede completamente de aderir a qualquer uma delas.
Pois, eu sei... falta-me a fé para fechar os olhos a isto. A isto e a outras coisas.
Para mim está fora de questão a redução da mulher a uma costela de um homem, a redução a um seu apêndice, criada unicamente para a satisfação e a companhia do Adão, que coitado, andava triste pelo paraíso. Para mim está fora de questão acarretar com as culpas da Eva ter cometido o pecado original e de, perigosa, pecadora, arrastar consigo o homem inocente. Para mim está fora de questão aceitar o papel da virgem Maria, mero receptáculo da vontade de
deus que pariu o seu filho, o seu filho masculino. Para mim está fora de questão aceitar que uma das mulheres mais influentes na vida deste filho de
deus seja de novo, de novo, uma pecadora dos sete
costados, a prostituta Maria Madalena. Para mim está fora de questão aceitar que o chefe máximo desta igreja só possa ser um homem, prolongando no tempo um estatuto obsoleto nos dias que correm.
Claro, haverá sempre quem me diga que esta história pode ser vista de múltiplas maneiras e eu sei que pode. A mim interessa-me vê-la assim, sem a inocência ou a complacência dos crentes, tal e qual foi escrita,
reflectindo a mentalidade masculina absolutamente dominante, própria daquela época.
E foi erradicada, esta mentalidade?
Que nada! A cada passo a vejo a estrebuchar aqui e ali, cá e lá, em nós e nos outros, absolutamente ridícula e obscena, ainda mais ridícula e obscena quando vinda das próprias mulheres.
Nota - A este propósito ler o meu post de 8 de Setembro de 2007 que se enquadra mesmo mesmo neste espírito ridículo e obsceno mantido por muitas fêmeas minhas contemporâneas.
Aqui deixo o link:
http://anabelapmatias.blogspot.com/2007/09/conversas-com-extraterrestres-i-ou-de.html