segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre o fim dos TPC - A Palavra a Luís Costa


Sobre o fim dos TPC - A Palavra a Luís Costa
  
"Voltou à baila o tema dos trabalhos de casa. Do muito que se tem dito, pouco se aproveita. Temo que entre a “nefelibatice finlandesa” e o “sacode-o-capote” bem português haja de tudo um pouco, com muito disparate e muito chico-espertismo à mistura. Deixa-me desolado este constante despejar tudo sobre a escola e sobre os professores, que, como esponjas, tudo absorvem (até rebentarem). Mas o que mais me custa é ver o corpo docente na posição de sujeito da passiva, à espera que as mudanças lhe caiam em cima.
A Escola é um sistema. Como tal, nenhuma alteração de uma parte pode ser isolada do todo, das repercussões que nele terá e das que dele sofrerá. Se essa harmonização não for previamente estudada, o fracasso é mais que certo, como tem acontecido. Já devíamos ter aprendido.
A sociedade, os últimos ministros desta pasta e muitos pais e encarregados de educação têm dado imensas esmolas para o peditório da desautorização dos professores. Esta (levada até ao cúmulo do ridículo) tem produzido as piores consequências na sala de aula, com prejuízos graves para os alunos: diminuição drástica do tempo letivo útil, crescente falta de respeito, desconcentração generalizada, desinteresse, pouca ambição, sentimento de impunidade… Paralelamente (e paradoxalmente), o que se pretende que os catraios aprendam não para de crescer. Chamemos-lhes programas, chamemos-lhes metas, chamemos-lhes competências, chamemos-lhes conhecimentos… chamemos-lhes o que quisermos, a verdade é que engordam de modo inversamente proporcional ao tempo útil de cada aula. Como se tal não bastasse, de todos os lados, aumentam as vozes que exigem, cada vez mais, que os professores se desenrasquem neste turbilhão, neste desnorteado vórtice. E ai deles, se não cumprirem o programa! Ai deles, se não souberem lidar com todas as diversidades e todas as adversidades! Ai deles, se não levarem o “sucesso” a beijar os três dígitos! Ai deles — começa agora a dizer-se —, se marcarem trabalhos de casa! Como anda iludido o nosso povo!
Há quase uma década que, neste e noutros espaços semelhantes, tenho defendido idêntica posição (aqui, por exemplo). É possível e desejável que tal aconteça, mas de forma sistémica, não isolada. Caso contrário, em vez de diminuirmos as desigualdades, reforçamo-las, ainda que com ilusão contrária. Um sistema que proporcionasse a todos os alunos um acompanhamento qualificado no seu imprescindível trabalho individual, fora da aula, seria, sem qualquer dúvida, uma arma poderosa contra as assimetrias, uma prodigiosa força democratizadora da escola e da sociedade. Porém, para que tal aconteça, é preciso possuir genuína e corajosa vontade política, sem demagogias, sem hipocrisias, sem populismos, sem aproveitamentos, sem eleitoralismos à mistura.
Querem acabar com os trabalhos de casa? Querem mesmo? A sério? Então, em primeiro lugar, deixem-se de imitações nórdicas. Nós somos latinos e temos uma História completamente diferente. Em seguida, dignifiquem os professores, não os desautorizem, devolvam-lhes, de facto, a presunção de verdade (refiro-me, neste particular, a políticos e a encarregados de educação). Concomitantemente, queiram tomar as seguintes decisões, no ensino básico (agora, só para políticos verdadeiros): não permitam que as escolas tenham mais turmas do que salas; emagreçam o currículo, de modo a que as crianças só tenham aulas de manhã; emagreçam também os programas, devolvendo ao ensino e à aprendizagem o precioso tempo da aplicação, da consolidação, da exercitação, da expansão… (a qualidade significativa em vez da quantidade superficial e efémera); devolvam às crianças o tempo (suficiente) de recreio livre após o almoço (aulas nessa hora é… contranatura); depois dessa oxigenação do corpo e da alma, encaminhem-nas diferentes ofertas pedagógicas livres de avaliações (clubes, núcleos disto e daquilo, projetos…); finalmente, façam-nos regressar às respetivas salas, onde farão os trabalhos, já não de casa, mas de escola, sob a supervisão dos professores. Assim, todos os alunos terão “pais” com formação superior. Entendem-me, não é verdade?
Ganhará a escola, ganhará a família, ganhará a sociedade. Mas quem mais ganhará, de facto, são os que agora perdem e se perdem com tão exuberante desorientação." 

Nota - Com os meus agradecimentos ao Luís Costa pela pertinente prosa! Retirada daqui.

2 comentários:

Paulo Borges disse...

Falar sobre os excessos cometidos de TPC não é mais um ataque aos professores. De facto quando os alunos estão 09:00 por dia na escola proporcionar mais escola é minar à uma velocidade furiosa a motivação dos alunos.

Anabela Magalhães disse...

A escola a tempo inteiro deu no que deu. :(

 
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