segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A Jóia de Luz e a Passagem de Testemunho sobre Amarante


Jóia de Luz - Amarante - S. Gonçalo
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

A Jóia de Luz e a Passagem de Testemunho sobre Amarante

A passagem de testemunho sobre Amarante é coisa que se continua a fazer por aqui. De pais para filhos, de netos para avós, Amarante corre-nos no sangue desde que nascemos. Aprendemos a olhá-la, a respeitá-la, a valorizá-la. Passamos isso aos mais novos calcorreando a pé todo o centro histórico com eles ao colo, às cavalitas, pela mão ou soltos... conforme as calçadas estão mais ou menos tratadas ou são mais ou menos íngremes e difíceis.
Amarante nunca foi uma terra exposta, fácil, escarrapachada. Tem de se percorrer as suas artérias e, sobretudo, tem de se percorrer os seus capilares para apreender a sua essência. Claro que há quem nunca o consiga fazer olhando para ela com superficialidade. Mas Amarante não é, nunca foi e não será nunca superficial.
Nas nossas deambulações a cada passo temos de contornar a merda de cão nos passeios, a merda de pomba nas vielas... e nos passeios, o mijo fétido nas quelhas, o lixo espalhado aqui e ali feito garrafas, papéis, plásticos e afins. Mas Amarante aguenta tudo isto, aguentando até a incúria de quem tem como missão e é pago! para dela tratar com firmeza, carinho e asseio... enfim, o problema é muito velho e não afecta somente um partido político, nem tão pouco este particular mandato.
Mas Amarante, abstraindo tudo isto e mais algumas coisas, é uma terra do caraças, bela como o raio que a parta, impondo-se no nosso interior, aninhando-se, para não mais sair, espampanante, romântica, subtil, lânguida, abandonada, primorosa, com um je ne sais pas quoi de burguesia italiana, chique, distante, enigmática, encantada, relaxada, animada, sossegada, poética, gelada, acalorada, sufocante mesmo, verdejante ou em explosões de cores outonais que entram pelas nossas retinas e ficam, ficam, ficam...e ficam.
A sua atmosfera tão especial é captada com anos de treino, desde a nascença em casas voltadas para o rio e para o casario que desce encosta abaixo que o relevo por aqui é tudo menos fácil. Daqui não saímos. Daqui ninguém nos tira.
Assim somos nós. Não somos fáceis e não queremos ser fáceis.
Estes muros, que para uns podem ser assustadores e violentos, são, para nós identitários. Não nos agridem, antes aconchegam-nos nas descidas frequentes ao rio.

- Vovó, Amarante é muito bonita, não é?

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