segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Do Escarro, do Vómito a S. Gonçalo em Dia de S. Gonçalo

Fotografia de... ?
Interior da Igreja de S. Gonçalo - Amarante
Fotografia de coronel Artur Freitas

Do Escarro, do Vómito a S. Gonçalo em Dia de S. Gonçalo

Hoje não é dia de posts fofinhos, de dia de sequilhos e de sequilhinhos à conta do Dia de S. Gonçalo. Hoje, para Amarantino/Amarantina que se preze de o Ser, é dia de profunda indignação e tristeza face ao absurdo de um atentado estético, cultural, religioso... perpetrado por gente bárbara que abunda quantas vezes disfarçada pelas peles de cordeiro que veste e que, infelizmente, ocupa e enxameia os lugares decisórios da Nação. 

Onde antes existia equilíbrio, espiritualidade e paz, tantas vezes por mim procurada dentro da Igreja de S. Gonçalo, hoje existe um vómito, um escarro que atrai o nosso o olhar e o deixa perturbado até ao tutano.

Irei lá, uma última vez, quando a Igreja de S. Gonçalo abrir aos comuns dos mortais, hoje foi só uma apresentação por convite após as tão necessárias obras de conservação e restauro, para registar a vergonha de um altar e afins, em mármore lavrado, horrendo, porque completamente descontextualizado. 

E não pretendo voltar a entrar naquele espaço que eu já senti inteiramente meu, espiritual, equilibrado, harmonioso, tão mas tão belo e que eu respeitava profundamente.

Relativamente à gente bárbara que abunda quantas vezes disfarçada pelas peles de cordeiro que veste e que, infelizmente, ocupa e enxameia os lugares decisórios da Nação, só lhes queria relembrar que estão por aqui apenas de passagem e que de nada são donos.

E dou a palavra à Conferência Episcopal Portuguesa Lisboa, em texto surripiado ao senhor Coronel Artur Freitas a quem agradeço a sua intervenção e a luta constantes pela preservação de um património que é de nós todos e que está a ser abastardado como o raio que o parta.

Ámen!

Um parêntesis... o mármore está a virar moda por aqui?!!! 

Conferência Episcopal Portuguesa Lisboa, 14 de Maio de 1990 

5. COOPERAÇÃO DA IGREJA E SOCIEDADE CIVIL NO QUE RESPEITA AO PATRIMÓNIO ECLESIÁSTICO 

O duplo interesse e o duplo dever – das entidades e órgãos de soberania da sociedade civil, por um lado, e da Igreja e seus responsáveis (sacerdotes, religiosos e leigos), por outro – exigem cooperação e concertação. Não se compadecem com bloqueios no diálogo, nem com medidas administrativas unilaterais. 

Qualquer tentativa de suprimir o papel de alguma destas instituições responsáveis é contrária ao processo social de criação do património eclesiástico e ao seu significado perene, tanto na perspectiva da função evangelizadora e pastoral da igreja, como na óptica de se tratar de um elemento culturalmente relevante para a sociedade civil. Da incorrecta valorização do património, no mais amplo sentido (defesa, salvaguarda, promoção, fruição e criação), todos hão-de sentir-se culpados.  

A Igreja, e em primeiro lugar os seus pastores, devem reconhecer, em alguns casos, deficiente organização, falta de actualização, insuficiente educação do gosto estético, de onde resultaram por vezes obras do património eclesiástico recente que não sendo genuínas formas da arte popular, são pura e simplesmente de mau gosto. Aceitando estas e outras culpas, não se fica diminuído, antes se abre caminho a uma renovada consciência da importância do património histórico-cultural e ao que é necessário fazer para sua defesa, dentro da Igreja e em colaboração com o Estado e a sociedade. A criação de novo património, tal como a conservação, restauro, inventariação, segurança, exibição e valorização do antigo, requerem técnicas da maior qualidade e actualidade, para que os lugares destinados ao culto e à catequese, e também a outras acções de tipo sócio-caritativo, sendo embora simples como se impõe, primem pelo bom gosto. Diz, a este respeito, a Instrução Geral do Missal Romano: “Procure-se que, mesmo nas coisas de menor importância, se respeitem integralmente as exigências da arte e que uma nobre simplicidade ande unida à necessária limpeza”. 

A perfeita adequação do património eclesiástico aos valores da expressão religiosa terá de ser garantida, em primeiro lugar, pelos próprios artistas e pelo povo que frui o património e, com particular responsabilidade de orientação, pelos bispos e pelos sacerdotes, seus cooperadores. 

Muito resta, todavia, por fazer. É preciso, por conseguinte, que os leigos cristãos assumam, nas paróquias e nas dioceses, bem como no plano nacional, uma participação activa na defesa do património cultural, vencendo uma certa passividade ou a errada ideia de que esta matéria seria estranha às suas preocupações fundamentais. 

7. ALGUMAS ORIENTAÇÕES PASTORAIS MAIS CONCRETAS 

Se a todos pedimos precaução, particularmente a solicitamos aos responsáveis pelos edifícios classificados. Diversas cautelas deveríamos ainda apontar, mas só outra juntamos aqui, porventura das mais prementes: a prudência, o respeito e o cumprimento das normas estabelecidas, sempre que seja necessário proceder a restauros e melhoramentos. Esta é uma das ocasiões que originam maior perca de património; este é também um dos momentos em que mais se evidencia o senso, o bom gosto e a cultura de um pastor. 

Lisboa, 14 de Maio de 1990


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