segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Quelhas










Quelhas - S. Gonçalo - Amarante - Portugal
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Quelhas

Esta é uma Amarante que permanece desconhecida, quantas vezes, para quem nos visita e que permanece na sombra, mesmo para muitos amarantinos, que sabem que ela existe, mas que não a cheiram, não a percorrem, não a observam, nem a absorvem. Bem sei que as quelhas são espaços estreitos, sombrios, onde a luz do sol mal penetra... mas que diabo, isto também é Amarante. E Amarante é sempre bela seja nas suas artérias, nas veias ou nos capilares.
As duas quelhas acima postadas são a Quelha das Garridas e a Quelha da Silvina. A primeira é bastante conhecida até porque o seu pavimento foi recuperado e é um dos acessos ao rio Tâmega. A segunda está bastante mais degradada no seu pavimento e nos edifícios que a ladeiam. As duas eram habitadas, na minha infância, por famílias bastante pobres e não raras vezes muito numerosas, como era o caso da família das Garridas que acabou por fornecer o nome popular e oficial à "sua" quelha. Percorro as duas desde miúda mas, sem dúvida, àquela a que estou mais ligada, pelas minhas memórias, é à Quelha das Garridas. Aliás o quintal dos meus avós, postado numa das fotografias, dava acesso, por um velho e estreito portão, a esta quelha, que eu tantas vezes desci acompanhando a criada da minha avó que, carregada com uma grande bacia de zinco cheia de roupa suja, empoleirada numa rodilha transformada numa espécie de rosca torcida, descia a calçada em direcção ao rio, onde havia sempre uma grande azáfama e o colorido da roupa a corar nas pedras e nos arbustos. Com sorte, na Primavera e no Verão, lá me deixavam ensaiar e treinar a lavagem da roupa, com os meus pés pequenos dentro da água fresca do Tâmega. E era sempre uma alegria porque o trabalho, pesado, era sempre acompanhado de tagarelice e cantorias.
Sem dúvida que o tempo tinha outra dimensão e tudo se processava muito devagar. E eu, que durante a minha vida já assisti a tanta mudança, que tive de me adaptar, melhor ou pior, a tanta inovação, dou por mim a pensar que esta falta de tempo cada vez mais notória, este acelerar constante do ritmo de trabalho, este sentir o tempo escoar-nos das mãos sem nós termos tempo de o reter, interiorizar, viver, vai dar cabo de nós enquanto pessoas.
Eu continuo a remar contra a maré dando a mim própria algum tempo de paragem, de quietude, de contemplação... nem que seja rápida, porque eu moro no século XXI!!!
Mas aqui nas quelhas o tempo parece quase fossilizado assim como algumas das pessoas que as habitam e não deixa de ser estranha esta sensação.

domingo, 18 de novembro de 2007

Amarante

Amarante

Nada melhor que um álbum fotográfico de Amarante, organizado pelo Helder Barros, para me fazer sentir que ainda tenho tanto, mas tanto que aprender neste mundo imenso e cheio de potencialidades, o mundo das novas tecnologias, onde eu sou apenas, e ainda, uma aprendiz de 1º grau.

Obrigada, Helder.


Arvoredos







Arvoredos - Amarante - Portugal
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Arvoredos

Adoro árvores e arvoredos. Aliás não é por acaso que estou farta de as plantar na Barca. Já plantei muitas e de várias espécies - castanheiros, pinheiros mansos, medronheiros, tangerineiras, laranjeiras, limoeiros, aveleiras, nogueiras e até já dei a plantar uma figueira, a figueira 23. E continuo a querer plantar mais e mais.
Mas hoje não é dia de plantações. Hoje é dia de contemplações. Tal como ontem foi e em que, para além da contemplação, registei a beleza inconfundível do arvoredo do Centro Histórico de Amarante. São tílias, amoreiras, carvalhos de várias espécies, plátanos... e estas árvores cujo nome desconheço - lá terei de consultar o Paulo Fontoura - que após a poda resultam assim em troncos desafiadores, quais esqueletos de corpos que esbracejam ao ar. São as árvores mais estranhas que aqui existem no burgo, e são também aquelas de que mais gosto. Porque são massas vivas, que acusam a passagem do tempo nas formas contorcidas dos seus corpos despidos, que se mantêm nodosos, disformes, mas firmes, verticais, saudando o céu azul com os seus braços descarnados erguidos, esbracejando, como que a despedir-se efusivamente deste Outono que rapidamente nos abandona.
Aproveitemos, então, o que a Natureza tão generosamente nos dá. E contemplemos.

sábado, 17 de novembro de 2007

O Meu Umbigo







S. Gonçalo - Amarante - Portugal
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

O meu Umbigo

Tardei a chegar ao meu umbigo. Mas hoje, depois da belíssima sessão de fotografia que fiz uma manhã destas, banhada por um sol de Outono esplendoroso, tinha que registar aqui o meu umbigo. E o meu umbigo, qual parte íntima de um corpo, corresponde ao umbigo de Amarante. Os dois são coincidentes no espaço e, por ora, coincidentes no tempo.
O meu umbigo é S. Gonçalo, com o seu mosteiro e as suas volumetrias cheias e curvilíneas do zimbório, a sua Varanda dos Reis, espantosa numa casa de Deus, a Torre-Sineira, esguia e elegante, o Largo, rasgado em espaço improvável, a ponte abrindo passagem para a margem esquerda do Tâmega, o Café-Bar e a sua esplanada, quase uma segunda casa para mim, que por aqui nasci bem perto, e por aqui ando desde que me lembro.
O Largo de S. Gonçalo, oficialmente baptizado de Largo da República, em homenagem à mesma e aos seus acérrimos defensores amarantinos, é o ponto a partir do qual eu irradio. É o ponto a partir do qual eu parto e, mais importante ainda, é o ponto aonde chego, e aonde quero sempre voltar.
O Largo de S. Gonçalo, e toda a sua envolvente, é o meu umbigo. E é também o meu Norte.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Animator vs Animation

Animator vs Animation

Dia complicado, este. Sem tempo para mais, deixo uma luta engraçada entre criador e criação, entre animador e animação. Divirtam-se.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Chamada Global Contra a Pobreza

Chamada Global Contra a Pobreza

Excelente spot publicitário que sendo um murro no estômago serve para acordar consciências. Consciências que andam quantas vezes enredadas em tralha e mais tralha. Tralha que está por todo o lado, que nos rodeia e nos oprime, e que nos obriga a despender de energia para conseguir sacudir alguma dos ombros. Este spot publicitário está baseado na simplicidade. Simplicidade da imagem. Simplicidade da mensagem. Chegará a muitos?



Nota - A Verinha enviou-me este endereço que eu agora partilho neste blogue. Aviso que as imagens são mais do que um simples murro no estômago. São inquietantes e perturbadoras. E merecem ser digeridas.

http://www.ekincaglar.com/coin/flash.html

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Arte Nova - Exteriores




Arte Nova - Praga - República Checa
Fotografias de Anabela e Artur Matias de Magalhães

Arte Nova - Exteriores

Apesar de tudo o que tinha lido e visto sobre a cidade de Praga, apesar dos elogios que me tinham feito a esta cidade que não deixa ninguém indiferente, a verdade é que a visita a Praga constituiu para mim uma agradabilíssima surpresa. Já o disse por várias vezes neste blogue. Volto a frisar. Praga é surpreendente. E é surpreendente por vários motivos. Um prende-se com a qualidade do património edificado que é verdadeiramente excepcional.
Podia falar dos edifícios românicos, góticos, renascença, barrocos, rocócós, neos-qualquer-coisa, cubistas, modernistas... mas vou apenas falar dos edifícios Arte-Nova que existem um pouco por todo o lado, na cidade de Praga.
Praga surpreendeu-me pela quantidade e, sobretudo, pela qualidade das construções edificadas no período conhecido pelo nome de Belle Époque e que vai de finais do século XIX até ao eclodir da 1ª Guerra Mundial, em 1914. E foi uma bela época, sem dúvida, reflectida nesta arquitectura tão delicada e elegante, ornamentada por formas geométricas e orgânicas desenhando não raras vezes arabescos improváveis. Formas ondulantes que se observam em longas cabeleiras que esvoaçam delicadamente na brisa, em caules suavemente emaranhados, em flores delicadas e ternas, em insectos que esvoaçam quais dançarinas num bailado, em pássaros, em pavões, em algas discretas, selectas, enfim em formas sensualíssimas que não podem deixar ninguém indiferente.
Amei ver e fotografar estes edifícios, este estilo arquitectónico e decorativo que não abunda em Portugal. Pois nesta cidade está por todo o lado. E é óptimo. Vale, por si só, uma deslocação a Praga. Porque esta cidade é uma lição de "Art Nouveau". Ao ar livre.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

We are all a bunch of Monkeys!!!

We are all a bunch of Monkeys!!!

Hoje abri a minha caixa de correio electrónico e surpresa... o Helder Barros enviou-me este maravilhoso trabalho que nos levanta algumas questões sobre nós próprios e nos reduz à nossa animalidade, tantas vezes "esquecida", atirada para um canto das nossas caves e fechada, a sete chaves, como se fosse possível escaparmos-lhe!
Somos todos um bando de macacos?
Somos. E com uma agravante.
Alguns macacos pensam e comportam-se como se fossem deuses!

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Lionel Neykov

Lionel Neykov

Descoberto durante uma pesquisa de música na net, Lionel Neykov revelou-se um excelente músico e um excelente cantor mesmo que assim, em dois vídeo-clips produzidos/publicados pelo próprio, em ambiente mais que caseiro. Bom ouvir este nova-yorquino que nos dá esta música do alto dos seus vinte e um anitos. Gostei. O tipo promete. Vou estar atenta a este menino.

E Lionel Neykov está à distância de um clique no Myspace. Vale a pena ir lá espreitá-lo. E continuar a ouvi-lo.

http://www.myspace.com/lionelneykov



domingo, 11 de novembro de 2007

S. Martinho


Castanhas - Barca - Amarante - Portugal
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães

S. Martinho

Durante a manhã, debaixo dos castanheiros, apanhei as últimas castanhas, abrindo ouriços com as mãos "protegidas" por luvas que, de vez em quando, deixam passar uns picos enormes que se vão espetando nas mãos.

Depois foi tempo de trabalhar arduamente no jardim pedregoso do escorpião azul. O jardim estava a sentir a minha falta e hoje foi tempo de cortar ervas como se de relva se tratasse, podar giestas preparando-as para a próxima floração, arrancar ervas dos empedrados e varrer os meus caminhos e penedos da Barca. O que ficou pronto ficou bem... o problema é que este trabalho não tem fim e quando acabo de um lado já o outro está a reclamar os meus cuidados urgentes. Problema? Não, de facto não se trata de um verdadeiro problema. Trata-se antes de um desafio, uma luta entre mim e a natureza daquele lugar selvagem que eu teimo em moldar. Apesar de ter plena consciência que serei sempre eu a perdedora. E que no fim serei eu a grande perdedora. Mas, por enquanto, divirto-me. E foi uma belíssima manhã de sol, passada em contacto directo com a natureza, com o tempo a escoar devagar.

E como hoje foi dia de S. Martinho comemorei-o entre amigos, à volta duma mesa, com vinho doce e castanhas acabadas de assar. "Comme il faut", portanto.

sábado, 10 de novembro de 2007

Grandes Superfícies


Silêncio - Barca -Amarante - Portugal
Fotografia de Artur Matias de Magalhães

Grandes Superfícies

Foi um convite foleiro este que a minha filhota me endereçou à hora de almoço e que me fez perder por completo uma fantástica tarde de sol, de um Outono que teima em ser quente, soalheiro, radioso. Convidou-me para ir com ela ao Ikea. E eu não resisti ao convite, e lá fui fazer a minha estreia neste tipo de grande superfície, desta vez de venda de todo o tipo de artigos que se possa imaginar para casa.
Confesso que não sou cliente, nem de longe nem de perto, das grandes superfícies, nem dos grandes centros comerciais. Basta-me lidar com muita gente na escola, gente que fala alto e aos berros, gente que se movimenta aos pulos, que se acotovela e pontapeia pelas escadas acima ou abaixo, como se isso constituísse uma diversão, para ficar de cabeça cheia, a aspirar pelo silêncio da Barca. Por isso dispenso a confusão das compras nas grandes superfícies, que são sempre sinónimo de gente aos molhos, que se movimenta vinda de todos os lados, e para todos os lados, num aparente caos completo e absoluto. Cansam-me. Esgotam-me. Deixam-me sem paciência para as compras. Deixam-me sem vontade de fazer compras.
Hoje entrei de dia e saí já o sol se tinha posto num horizonte ainda laranja avermelhado prometendo um amanhã soalheiro. E saí como sempre. Cansada. Esgotada. E de mãos a abanar. Para além de estar muito disciplinada, e resistir muito bem aos apelos ao consumo desenfreado que caracterizam a nossa civilização, tenho consciência que as grandes catedrais do consumo exercem sobre mim o efeito inverso ao que seria de esperar.
Se valeu a pena ter ido espreitar? Valeu. Os artigos expostos têm uma qualidade bastante aceitável, excelente design, preços incrivelmente baixos.
Havia gente às compras?
Sim, aos molhos, deslocando-se para todos os lados com tralha nas mãos, nos sacos e nos carrinhos.
É assim que os suecos nos levam a melhor. E merecem.

Campanha Contra a Pobreza






Campanha Contra a Pobreza

O meu caríssimo amigo Helder Colmonero enviou-me por e-mail esta excelente campanha publicitária, da People in Need, contra a pobreza.
Transcrevo as palavras que acompanham as imagens e deixo os comentários aos meus leitores.

Handbag € 32.-
Food for a week € 4.-

Pint of Beer € 4.5o.-
50 liters of fresh water € 1.50.-

Aftershave € 35.-
Basics for a new home € 6.50.-

Sunglasses € 24.-
Access to water € 8.-

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Neneh Cherry - I Got U Under My Skin

Neneh Cherry - I Got U Under My Skin

Neneh Mariann Karlsson nasceu em Estocolmo, filha de mãe sueca e pai natural da Serra Leoa. Mistura hip-hop, soul, rock, jazz, rap e é uma das fundadoras do trip hop.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Paulo



Paulo
Fotografias de não sei quem

Paulo

Este é o meu primo que faz hoje 46 anos e está, por isso mesmo, de parabéns.
Acompanha-me, literalmente, desde que me lembro, e este facto faz dele mais um escorpião especial na minha vida. Muito próximos em idade, já que somente uns dias separam o seu nascimento do meu, recordo que durante muitos anos, do nosso já longo crescimento, eu era a mais alta, para além de ser, para sempre, a mais velha, o que me enchia de orgulho e satisfação, e me fazia olhar para ele como uma espécie de irmão mais novo que eu devia proteger.
O Paulo, de entre todos os meus primos e primas, de um e outro lado, foi sempre o meu preferido, o mais próximo, e foi sempre o meu companheiro predilecto de brincadeiras de criança em cavalgadas memoráveis nas videiras do nosso avô Rodrigo e corridas em equilíbrios instáveis pelos postes horizontais das ramadas. Era com ele que eu apanhava rãs nos charcos ao pé do grande tanque que nos servia quantas e quantas vezes de piscina. E faziamos corridas de rãs em pistas rectilíneas marcadas com partida e chegada. Colocávamos as rãs em posição, e era a ver quem mais berrava pela sua, incentivando-a a cortar a meta, em grandes saltos acompanhados de coaxares melodiosos. Uma alegria. E era com ele que eu fazia concursos de saltos de rãs para dentro de água em que pendurávamos as rãs pelas patas traseiras nos arames da ramada sendo que o vencedor era o dono da rã que se aguentava mais tempo pendurada, até mergulhar, de cabeça e na vertical, na água fresca do tanque. E fazia com ele corridas de sameiras, cabanas de índios nos troncos das laranjeiras, macieiras e pereiras da propriedade do nosso avô. Eram os anos sessenta. Anos sessenta vividos numa pacata e belíssima vila como era então Amarante. Os brinquedos não abundavam mas sobrava-nos a imaginação.
Um dia, algures pela nossa adolescência, o Paulo ultrapassou-me em altura. Colocados lado a lado para as marcações da praxe, que já vinham do tempo em que nós usávamos fraldas... surpresa das surpresas... para meu grande desgosto... era mesmo um facto... eu ficara irremediavelmente para trás em altura!
O mesmo não se passou nunca com a idade.
Quarenta e seis anos. Já, Paulo?!
Parabéns.
Apanhaste-me.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Rua "Chique"







Rua "Chique" - Praga - República Checa
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Rua "Chique"

Todas as cidades-capitais, e as mais pujantes cidades a nível económico, possuem uma rua a que eu chamo genericamente de rua "chique". É a rua onde se concentram as lojas das melhores marcas de alta-costura do mundo. E não só. É a rua onde se situam as lojas das melhores marcas do mundo. Ponto. E dependendo do poder de compra dos nativos ou da turistada, lá estão elas, em maior ou menor número, em Praga, em Milão, em Marrakech, em Braga ou em Paris.
A rua postada nas fotografias é a rua "chique" de Praga, aquela onde se situa o Café Nespresso e onde se situa a loja Dior, entre outras lojas de marcas por demais conhecidas a nível mundial. Devo dizer que é uma rua belíssima, entre centenas de outras igualmente belas da cidade de Praga pois Praga, do ponto de vista do património edificado, é um espectáculo.
Sempre que visito uma cidade procuro estas ruas e gosto de as cheirar. Gosto de cheirar o ambiente, observar quem se movimenta nelas, quem entra e sai destas lojas, quem entra e compra nestas lojas. Foi assim que já vislumbrei Vítória Beckman em Milão, a bordo do seu carro, conduzida pelo seu motorista, e foi assim que eu já observei que a turistada com poder de compra para isto é a oriental. Japoneses e japonesas que entram e saem destas lojas de sacos na mão.
Por mim limito-me a ver e gosto de observar modas extremamente elegantes que só se coadunam com peles perfeitas, maquilhagens impecáveis, cabelos imaculados, enfim uma imagem de sofisticação que não tem rigorosamente nada a ver comigo ou com os meus caminhos e muros da Barca.
Mas que continuarei a gostar de observar, seja lá onde for.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Mohammed


Mohammed - Fez - Marrocos
Fotografia de Artur Matias de Magalhães

Mohammed

Hoje vou falar do Mohammed. Do extraordinário Mohammed que vive e trabalha na extraordinária cidade de Fez, em Marrocos.

Conheci o Mohamed faz muitos anos, por acaso, no interior da medina de Fez, quando qualquer coisa me despertou o interesse na sua minúscula loja. Por isso entrei. Eu e uma data de amigos que eu conduzia e guiava por terras de sua majestade, na altura ainda o rei Hassan II.
A loja do Mohamed, entre outras coisas, tinha uma boa colecção de tapetes marroquinos, nomeadamente kilims vermelhos, o tipo de tapete que eu mais aprecio de todos os tipos de tapetes produzidos em Marrocos.
Vasculhámos a loja e lá iniciámos o negócio. Aqui chegados tenho que esclarecer que um negócio em Marrocos, independentemente do valor em causa, pode dar para uma tarde inteira de discussão, isto se as partes estiverem para aí viradas e se estiverem inspiradas. Ora naquela tarde estávamos todos inspirados. E todos queriam comprar tapetes. Muitos tapetes.
O negócio decorria a bom ritmo entre gargalhadas e copos de chá de menta, de whisky berbere, como dizem os marroquinos, até que o Mohammed se vira para mim e me informa que está na hora das orações, que ele vai à mesquita rezar e volta já já, e pede que lhe tomemos conta da loja! E lá foi ele, o que nos fez olhar uns para os outros incrédulos e perplexos perante uma situação inédita em que um comerciante larga a sua mercadoria com os potenciais compradores e em que um comerciante abandona um negócio fabuloso! Surpreendente! Surpreendente a fé que o fez pôr em causa tamanho negócio. Surpreendente a calma, a serenidade e a tranquilidade espelhadas no seu rosto que se ia abrindo em sorrisos rasgados e francos durante toda aquela tarde irreal.
E assim continuou mesmo quando eu lhe propus comprar a djelabah que ele trazia vestida, depois de esgotadas todas as possibilidades de me arranjar uma parecida. E comprei-a. Despi o homem ali mesmo na loja, e enfiei-me dentro da djelabah mais cheirosa que vesti em toda a minha vida, enquanto os meus companheiros de viagem riam a bandeiras despregadas de tão insólita situação.
E, engraçado, durante muito tempo a djelabah do Mohammed continuou a cheirar-me a Mohammed, mesmo depois de lavada, aqui, em Amarante.
Agora, perdido o cheiro algures no tempo, a djelabah continua a fazer-me lembrar aquele homem curioso e enigmático que me deixou a pensar e a reequacionar os meus valores e a minha vida.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O Artista e a sua Obra


Rodrigo - O Artista e a sua Obra
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

O Artista e a sua Obra

O Rodrigo, tal como já disse neste blogue, é o meu sobrinho postal ilustrado que a cada passo vem passar tardes aqui a casa, com a Joana. Devo esclarecer que apesar da diferença de idade são dois primos que se adoram e se entendem muito bem. E a Joana sabe muito bem como lidar com a canalhada e com este moço em particular. Assim, tarde aqui passada equivale a tarde de jogos no computador, de tal ordem que um dia ele próprio achando já demais o tempo passado colado ao visor, olhou para nós preocupado e perguntou: "Já estou com os olhos em bico?"
E é que já estava mesmo!
Por isso a Joana introduziu-lhe uma variante que é a pintura e um destes dias era vê-lo nas escadas, a chamar por mim todo orgulhoso "Anda ver a minha pintura!" E a pintura que o entreteve durante toda a tarde foi este pirata, que por um mero acaso não é o da perna de pau, e que eu postei ao pé duma fotografia do Rodrigo tirada na praia de Moledo, em Agosto passado.
Assim posto o artista em pose de artista, e a sua obra, para a posteridade.
E nunca se sabe o que vai sair daqui! Quem sabe o Rodrigo não vai dar em pintor?!
Ai, ai, ai... mas se der em pintor que não saia a esta tia que só pinta paredes!!!!

domingo, 4 de novembro de 2007

Dióspiros



Dióspiros - Amarante - Portugal
Fotografias de Anabela Matias de Magalhães

Dióspiros

O sabor dos dióspiros foi completamente ignorado pela minha pessoa durante quase toda a minha já longa vida.
Presumo que algures na minha infância terei experimentado um dióspiro verde. E digo presumo porque não guardo lembranças da coisa... só sei que durante anos consecutivos olhei para eles com um olhar de repugnância impossível de disfarçar. Até sentia um amargor na boca só de olhar para eles. E sentia repugnância e espanto por ver a minha mãe, a cada ano que passava, comer deliciada este fruto que esteticamente sempre considerei bonito, mas sobre o qual não conseguia sequer conceber a ideia de o poder vir a experimentar.
E assim se foi passando o tempo.
Há cerca de dois anos resolvi vencer esta repugnância inexplicável face a um fruto que continuava a achar belíssimo, principalmente pela cor, laranja forte, com um pingo de sangue, e experimentei.
E dei comigo a pensar como foi possível ter perdido, ano após ano, este manjar dos deuses que me faz lembrar, pelo efeito que tem sobre mim, os Mille Feuilles da Patisserie du Sud de Ouarzazate?! Mas como foi possível ignorar completamente este sabor único e irrepetível e esta textura um pouco gelatinosa que se vai desfazendo lentamente na boca?!
Agora é ver-me a comer dióspiros atrás de dióspiros, geladinhos e bem regados com canela.
É a fruta que me tira completamente do sério porque é de ficar a lamber os beiços, deliciada.

É a fruta que me tira completamente do sério porque é de comer e chorar por mais.

sábado, 3 de novembro de 2007

Juana Molina - No Es Tan Cierto

Juana Molina - No Es Tan Cierto

Aqui deixo Juana Molina, uma argentina nascida em Buenos Aires, em 1962, num vídeo-clip belíssimo.

No Es Tan Cierto

Es así: no es verdad y nada es tan cierto
Por ahí parece haber asomando un cuerpo.
Puede ser su cuerpo.

Quieren ver adonde van tomados de la mano
Y, verán, los espiarán, y todo es tan humano
¡humano! ¡qué espanto! humano

Quiero pararlos, quiero enseñarles,
Pero no acierto
Ya pasó la eternidad
¿adónde están los muertos?
Muertos
Muertos

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Escorpião - 23/10 a 21/11


Museu de Praga - Praga - República Checa
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães

Escorpião - 23/10 a 21/11

De 23 de Outubro a 21 de Novembro os escorpiões estão em festa.
Isto porque todos eles partilham o facto de terem nascido algures neste período. E, para além de partilharem este facto, partilham também características comuns que os aproximam entre si fazendo com que se atraiam qual matéria para um Buraco Negro. Acho até que os escorpiões se cheiram à distância com um olfacto muito invulgar, de tão apurado, na espécie humana. E cheiram outras coisas como ninguém: a hipocrisia, a falsidade, a infidelidade, a desonestidade, os floreados, as hesitações, os medos... coisas que os escorpiões não suportam e os tiram do sério.
Os escorpiões são os melhores amigos que se pode ter, mas são também, muitas vezes, os piores inimigos. Nesse caso o melhor é fugir para longe porque o escorpião é sempre desmedido. Mas os escorpiões têm outras características que compensam esta faceta. Os escorpiões não mentem... quando muito ficam-se pelas meias verdades, pela omissão. E são corajosos, valentes, determinados, lúcidos, profundos, misteriosos, excessivos, correctos, honestos, fiéis, leais, sensíveis, perspicazes, convincentes, respeitadores, solidários, generosos... tudo isto envolvido numa capa que dá para transmitir aos outros duas características aparentemente opostas: uns aparentam ser extrovertidos e extremamente sociáveis, outros aparentam ser introvertidos e tímidos.
Mas a verdade verdadinha é que são todos reservados.
Reservados até na partilha. Reservados apesar da partilha.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Recolha de Sangue




Recolha de Sangue

Luís, aqui está a ordem de marcha que todos os dadores do concelho de Amarante receberam nos seus telemóveis:

"Dia 03/11/2007 das 09:00 às 12:30 contamos com a sua dádiva de sangue em: Escola E.B. 2/3 de Amarante. Obrigado.
IPS - Porto"

Infelizmente eu não vou poder estar presente no próximo sábado porque tomei um medicamento para o acne que me veda completamente a possibilidade de doar o meu sangue durante meio ano.
Na próxima recolha estarei já ok, espero.
Mas vai tu, Luís, e faz a tua estreia. Vais ver que sais de lá sentindo-te mais útil e que vais ficar a gostar um pouco mais de ti.
E vais ver que não custa nada.
Beijos Grandes.
Ah, e enches-me de orgulho!
Nota - A mão acima postada é minha, e é do tempo em que eu andava na Primária, no Colégio de S. Gonçalo. Encontrei-a aqui em casa e gostei do vermelho...
 
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