Cursos de Educação e Formação - CEFHoje volto aos meus
CEF para esclarecer alguns pontos mal esclarecidos, ao que parece, sobre o que eu digo e o que eu escrevo sobre os meus alunos dos
CEF.
A história conta-se em duas penadas.
Hora do lanche, sala de professores da
EB 2/3 de Amarante. A minha Inês sobe as escadas e entrega-me uma cesta
cheiinha de pão acabado de cozer com um aspecto de morrer e chorar por mais e um calor e cheirinho que foi subindo até às minhas narinas e me deixou com vontade de o abocanhar de imediato. Agradeci-lhe a gentileza e o cuidado, gentileza e cuidado previamente solicitados por mim a esta turma e respectivo professor de Padaria. Gosto destes mimos que nos aconchegam os dias e lembrei-me que seria agradável alargá-los aos meus colegas de lanche, um dia destes, de surpresa... e pronto, a surpresa
surprendeu-nos hoje mesmo. Confesso que esta estratégia de aproximação é também uma forma consciente, da minha parte, de tentar quebrar alguns mitos urbanos associados a estes alunos.
Pousei o cesto no balcão e ofereci o pão aos presentes em nome dos meus alunos de Padaria/Pastelaria acompanhado de um sincero "Pena que o Ramiro Marques não esteja aqui para verificar, ao vivo, que os alunos de
CEF não são todos uns cancros."
Confesso que esta expressão "cancro", utilizada pelo Ramiro há uns bons dois anos, em post sobre o assunto, me chocou pela generalização abusiva aos alunos dos
CEF que, tal como todos os outros, são indivíduos merecedores do nosso respeito até prova em contrário. E o Ramiro sabe disto, deste meu desagrado. E sabe que eu sei que a sua experiência com alunos de
CEF é igual a zero e que, para emitir a opinião que emitiu, teve de
emprenhar pelos ouvidos.
Pelos ouvidos
emprenhou também uma colega que estava na sala de professores, Olá A!, que me acusou, de imediato, de dourar a pílula acerca dos alunos dos
CEF e dar deles uma imagem que está longe da realidade, o que eu contestei de imediato e à minha questão "Que experiência tens de alunos dos
CEF?" a resposta foi zero de experiência, tal como eu esperava.
Há um mito urbano, muito difundido entre os professores que nunca leccionaram turmas de
electricistas, carpinteiros,
serralheiros, empregados de mesa,
padeiros/
pasteleiros, jardineiros e auxiliares de
geriatria, como é o meu caso, de generalizarem tudo e meterem tudo no mesmo saco apoiando-se nuns "disseram-me" e nuns "ouvi dizer". Confesso que para mim isto vale o que vale e não vale muito porque se eu
emprenhasse pelos ouvidos jamais teria visitado Marrocos já que, antes de o visitar pela primeira vez, no já muito longínquo ano de 1990, ouvi de viva voz por quem acabara quase de chegar que aquilo era
muiiito perigoso e muiiiito porco e muiiito mal cheiroso e muiiito inseguro e
patati e
patatá.
Devo amar sítios
muiiito perigosos, muiiito porcos, muiito mal cheirosos e muiito inseguros porque desde aí só falhei 1991 e 2010, com anos de 3 colheitas ao país assustador do Sul.
Posto isto vou fazer uns pontos da situação, clarificando o meu pensamento, construído sobre a minha própria experiência com alunos de CEF desde 2004, sem interrupção.
Ponto Um - As turmas dos
CEF são, na generalidade, turmas bem mais complicadas e complexas do que as turmas ditas normais. Por vezes muitíssimo mais complicadas mesmo, e já me aconteceu trabalhar com uma que só não me levou a consultas de
psiquiatria porque eu sou mentalmente muito resistente - faço referência a esta turma
aqui, muito embora muito ao de leve.
Ponto dois - Por vezes, turmas complicadas e difíceis têm comportamentos exemplares, como este
aqui, ou este
aqui... e outras vezes não, como este
aqui.
Ponto três - Também já me aconteceu ter uma turma de
CEF que poderia ser uma vulgar turma de alunos de um 9º ano dito normal e da qual deixei rasto
aqui.
Ponto quatro - Exijo-lhes trabalho, tal como a todos os meus outros alunos, que eu não gosto de discriminar ninguém, e desta exigência deixei testemunho
aqui.
Ponto Cinco - Para aprofundarem o meu pensamento sobre os
CEF, construído com base na minha experiência, podem clicar
aqui.
Ponto seis - Cito-me a mim própria:
"Falo do que sei. Falo da minha realidade. Da minha realidade em salas com empregados de mesa, carpinteiros,
electricistas, carpinteiros, jardineiros,
padeiros e
pasteleiros. Da minha realidade muito trabalhosa, para quem não queima o ano a passar-lhes filmes, da minha realidade sem manuais, com alunos, por vezes, muito difíceis, por vezes mesmo incrivelmente difíceis e outras vezes não.
A realidade dos outros não a
vivenciei e por isso não a posso testemunhar.
Falo do que sei. E tenho dito."
Citação retirada
daqui.
Ponto sete - É claro que podem sempre clicar na etiqueta "
CEFs" e mergulhar em
posts sobre esta realidade que já virou mito urbano em todas as salas de professores por onde eu passei desde 2004, sem excepção.
Ponto oito - Conclusões
- Há CEFs e CEFs, tal como eu sempre afirmei.
- A minha realidade é a minha realidade e a minha realidade pode não ser a do professor do lado, mesmo que com os mesmísssimos alunos. Muito menos poderá ser estendida e generalizada a todas as turmas de CEF que por este país abundam, como eu sempre afirmei.
- Por último... eles têm dias. Uns dias melhores, outros piores. Como eu sempre afirmei.
Mas a mim também me ocorre acontecer-me o mesmo...