sábado, 15 de março de 2008
(by The Beatles)
Words are flowing out like endless rain into a paper
cup,
They slither while they pass they slip away across the
universe.
Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my
open mind,
Possessing and caressing me.
Jai guru deva om.
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.
Images of broken light which dance before me like a
million eyes,
Thay call me on and on across the universe.
Thoughts meander like a restless wind inside a letter
box,
They tumble blindly as they make their way across the
universe.
Jai guru deva om.
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.
Sounds of laughter shades of love are ringing through
my open ears,
Inciting and inviting me.
Limitless undying love which shines around me like a
million suns,
It calls me on and on across the universe.
Jai guru deva om.
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world,
Nothing's gonna change my world.
Jai guru deva om,
Jai guru deva om,
Jai guru deva om...
Educação: Falta de acordo na avaliação de professores leva BE, PCP e CDS-PP a reafirmarem suspensão
14 de Março de 2008, 23:49
Lisboa, 14 Mar (Lusa) - A falta de acordo entre sindicatos e Governo (PS) quanto à avaliação de desempenho dos professores levou hoje o PCP, Bloco de Esquerda e CDS-PP a reafirmarem a necessidade da suspensão do processo.
O Ministério da Educação anunciou hoje que o regime simplificado de avaliação, que exclui alguns dos requisitos, como a observação de aulas, e critérios, como as notas dos alunos, estabelecidos no diploma terá de ser negociado em cada escola e contar com o acordo dos professores avaliados.
Em resposta, no final da última reunião com a tutela relativa à regulamentação do processo de avaliação dos docentes, a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) ameaçou, em declarações à Agência Lusa, recorrer aos tribunais por considerar ilegal o regime simplificado, alegando que este representa uma alteração ao diploma que não foi negociada.
A FENPROF (CGTP-In) já tinha sustentado que só daria o seu acordo caso houvesse uma suspensão inequívoca do processo de avaliação no corrente acto lectivo e fosse decretada a sua aplicação a título experimental em 2008-2009.
A Federação Nacional de Sindicatos de Educação (UGT) deu igualmente por terminadas as negociações com a tutela, com quem esteve reunida hoje durante cerca de três horas, considerando que a simplificação da avaliação, negociada em cada estabelecimento e aplicada de forma diferenciada, põe em causa "o princípio da unidade" entre escolas e docentes.
Instado pela agência Lusa a comentar a falta de acordo ente sindicatos e o Governo, o líder parlamentar do CDS-PP, Diogo Feio, afirmou que "não tem qualquer sentido" iniciar-se o processo de avaliação "a meio do ano lectivo".
"Esperávamos que todas as conversações com os sindicatos levassem à suspensão [do modelo de avaliação] e ao seu reinício no próximo ano lectivo", acrescentou.
Jorge Pires, da Comissão Política do PCP, considerou "previsível" a falta de entendimento dos sindicatos com "a arrogância, prepotência" do Governo, que "não consegue fazer uma leitura do protesto" nacional de professores de há uma semana.
"Nenhum sistema de avaliação pode ser implementado contra os professores", sustentou, acrescentando que o partido propôs a suspensão do modelo e a "discussão da matéria", que "o PS recusa liminarmente".
A deputada do Bloco de Esquerda Ana Drago invocou que o modelo simplificado de avaliação dos docentes "cria uma situação de desigualdade" e reiterou a sua suspensão e discussão comparativa com modelos de outros países.
"É absolutamente preocupante a estratégia de sobrevivência política do Governo, que não quer discutir o assunto", referiu, advogando que "é uma irresponsabilidade" avançar com a avaliação dos professores "a meio do ano lectivo".
O porta-voz do PS, Vitalino Canas, desvalorizou as críticas da Oposição e sindicatos, sublinhado que a avaliação abrangerá este ano lectivo "um número reduzido de professores" e supõe a "flexibilidade" da sua aplicação por parte das escolas.
O PSD remeteu eventuais comentários para sábado.
ER/JPB.
Lusa/Fim
sexta-feira, 14 de março de 2008
Para ver uma excelente colecção de fotografias tirada no passado dia 8 de Março é favor clicar em http://static.publico.clix.pt/docs/educacao/manifprofessores/index.html
Vinda duma visitinha ao blogue do meu colega António França, http://gatoquefala.blogspot.com/, é sem surpresa que me deparo com a seguinte constatação: o fórum da DGRHE "onde as escolas podem partilhar experiências, divulgando os materiais que vão concebendo no âmbito da implementação da avaliação do desempenho do pessoal docente" tem oito mensagens e uma proposta de materiais. E de onde é a proposta de materiais? De onde é? De onde é? Fácil, fácil. Da Escola Secundária de Amarante, claro está, onde o fosso cavado entre partes é cada vez mais notório, onde a insatisfação reina tal como noutra escola qualquer, e onde o descontentamento impera na sala de professores. Não se fala de outra coisa. A vontade de largar tudo é enorme.
Eu confesso que até já fiz uma proposta desonesta ao meu homem. Sei lá, de repente se ele me patrocinasse um anito de licença sem vencimento, eu viraria dondoca, iria ter tempo para ir à manicure, ai eu de unhata vermelha, havia de ser delicioso!, ao cabeleireiro, quiçá fazer umas extensões e perderia talvez o meu ar de hooligan de cabelo rapado, teria tempo para ler um livro, para ir ao cinema ou ao teatro, para voltar aos concertos, ou para simplesmente me esticar ao sol sem pensar em mais nada, deixaria a poeira pousar, fugiria deste caos, desta luta desgastante e diária que me incomoda e aflige porque esta não é a minha escola, esta não é a minha Educação. Pois... mas a verdade é que nem o Artur consegui convencer. Nem ele me consegue imaginar disfarçada de dondoca. E assim sendo terei de continuar a labutar na Escola Secundária de Amarante ou noutra escola qualquer.
Para conferir a proposta de materiais enviada pelo meu director é favor clicar na hiperligação
http://ecd.dgrhe.min-edu.pt/mod/forum/view.php?id=88
E agora que conferiram vão ao blogue do Ramiro Marques
http://www.professoresramiromarques.blogspot.com/ e vejam a diferença.
E concluam comigo... de facto, algo vai muito mal no Reino da Educação e na República Portuguesa quando há este fosso intransponível cavado entre a tutela e os tutelados. Tutelados? Já vejo a corda demasiado esticada. O fosso é agora enorme e uma vez perdida a confiança numa das partes...
quinta-feira, 13 de março de 2008
A prova do frete realizado a 5 de Março de 2008, passado no Jornal da 1 hora, do dia seguinte. Coincidentemente no dia da entrevista da ministra da Educação a Judite de Sousa e a dois dias da Grande Marcha da Muita Indignação.
É favor clicar na hiperligação.
http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=331150&tema=27
Barca - Carvalho de Rei - Serra da Aboboreira - Amarante
Fotografia de Artur Matias de Magalhães
Ricardo Cerqueira Abreu
Hoje termino a publicação do conto do Ricardo agradecendo-lhe o enorme privilégio que constituiu para mim a publicação da sua escrita tão criativa, madura, profunda.
E agora só para o Ricardo, que ninguém nos ouve...
Já não temos mais aulas durante este período, e só nos encontraremos depois da paragem da Páscoa, mas não queria deixar de te dizer que tive comentários muito elogiosos ao teu conto, de pessoas próximas que não costumam comentar o meu blogue. É para que saibas. Um beijo grande e diverte-te. Se mereces!
Viagem através da vida, da mente e do monte
IV - Capítulo
Voltei a acordar, em minha casa, no meu quarto. Vi que o meu pai estava ao meu lado e soltei um grito de felicidade, mas também fiquei intrigada com o facto de estarmos sãos e salvos, em casa. O meu pai percebeu a minha dúvida e explicou-me que enquanto estava a procurar lenha, caiu num buraco coberto pela neve e ficou lá muitas horas sem poder sair, faminto e gelado. Acabou por ser salvo por um indígena que o levou para a sua aldeia onde trataram dele.
O meu pai, através de gestos e desenhos, pediu-lhes para um deles ir ver se eu estava bem. Foi esse indígena que me salvou do lobo.
Como recompensa o meu pai prometeu ensinar-lhes a ler e a falar a nossa língua. Os indígenas perceberam a mensagem e ficaram contentes por poderem vir a comunicar connosco.
Os anos foram passando e eu cresci. Tornei-me uma acérrima defensora dos direitos dos indígenas e percorri o mundo.
Depois de alcançados os meus sonhos e ambições, só me restava, na memória, uma frase que um velho amigo tinha proferido:
- Só resta saber que decisão tomar e o que fazer a seguir.
Ricardo Abreu
N.º 22
9.º H
Museu Amadeo de Souza-Cardoso - 9º G - Amarante
Fotografia de Anabela Matias de Magalhães
O Futuro Será Isto?
O crescente número de crianças e jovens que se sentem deprimidos e ansiosos está a causar profunda preocupação entre os professores e educadores, em Inglaterra. As pressões que os jovens sofrem face à sociedade moderna são apontadas como as causadoras deste estado de coisas. Disfunções sociais e famílias separadas estão a prejudicar o desempenho das crianças nas escolas.
Entre as conclusões do congresso da ATL (Association of Teachers and Lecturers) fala-se do crescente número de alunos que se suicidam devido a "pressões académicas, e sociais" designadamente as que são exercidas pelos pares. Afirma-se ainda que muitas crianças não conseguem aprender devido ao stress a que estão sujeitas. Numerosos estudos apontam para o crescimento deste fenómeno sobretudo, nas escolas básicas onde os comportamentos anti-sociais, o materialismo e o culto da celebridade está a "matar" a infância.
Outros relatórios apontam as políticas educativas como as responsáveis por este estado de coisas. Um sistema rígido de testes de aferição e a constante necessidade de atingir objectivos estará a levar um crescente número de alunos a sentirem-se alienados dentro da sala de aula pois os professores passam demasiado tempo a "ensinar para os testes" pelo que deixou de haver tempo para a brincadeira e o divertimento no curriculum do ensino básico Em resultado disso, as crianças estão cada vez mais ansiosas e tristes. Algumas escolas estão até a introduzir aulas de "Felicidade" .
O primeiro passo para a solução do problema poderá estar na redução dos trabalhos de casa nos ensinos básico e secundário. Desde 1997 que foram definidos padrões para os TPC's das crianças e jovens entre os 4 (c. 20 min. /noite ) e os 16 anos (entre 90min a 2H/ noite) o que tem constituído também uma pressão para os professores. De resto, o nível de exigência não se tem repercutido positivamente na qualidade do ensino. A Inglaterra caiu vários lugares neste ranking que continua a ser liderado pela Finlândia.
O governo Trabalhista mantém-se, no entanto, firme nas suas políticas rejeitando as críticas e afirmando que "2008 é um óptimo ano para ser criança."
Num momento em que se proclamam as virtudes da "escola a tempo inteiro", que obriga à permanência das crianças em full-time dentro do espaço-escola, deveríamos reflectir sobre as consequências desta decisão para a qualidade de vida dos mais jovens e se esta conversão das escolas em "armazéns de crianças" onde o "conhecimento" é o pretexto para as manter fechadas cinco dias por semana, se traduzirá numa mais-valia para o seu futuro enquanto cidadãos e enquanto pessoas.
In The Independent

Caricatura - Escola Secundária de Amarante
Feira do Livro - Ministra
Pois é verdade, decorre uma feira do livro na minha escola e a par dos livros em exposição encontram-se trabalhos de alunos e de professores expostos no mesmo recinto.
As escolas e os professores que as habitam continuam a fazer um esforço sobre-humano para manter as actividades que desde sempre realizaram, apesar da confusão e burocracia acrescida em que estamos todos mergulhados e atolados até ao pescoço. Melhor, até à cabeça.
Entre todos os trabalhos, destaco o que ilustra este "post". Uma caricatura da nossa Ministra da Educação representada em todo o seu esplendor. Uma zangona que lidera um ministério de forma autista, autoritária, isolada, parecendo zangada com a Educação e o Mundo, mantendo um semblante carregado, fechado, onde a frustração está presente, esbracejando sem fim, querendo agarrar tudo e todos com os seus "tentáculos", todos querendo atingir com o seu ferrão.
Não conseguirá desmobilizar os professores. Não conseguirá aniquilar-nos com o seu veneno.
Revejo-me em cada palavra dita por Manuel Poppe.
E jamais serei uma professora agachada. Até posso ir parar a uma biblioteca qualquer. Mais e antes disso. Jamais serei uma pessoa agachada. Hoje são 12 de Março de 2008... tantos dias passaram já desde o 25 de Abril de 1974. Tantos que não os esqueci. Cada um deles vivido em Liberdade e Democracia, valores aos quais me rendo incondicionalmente e defendo furiosamente.
Manuel Poppe in JN 9 de Março
1. Afirmaram-se, ontem os professores. Milhares. Não se manifestaram porque não têm nada que manifestar. Há mil gerações que ensinam as pessoas a serem pessoas. Afirmaram, ontem, a identidade - a vocação - contra o que este governo lhes tem retirado precisamente, a possibilidade de realizarem aquilo que os levou a serem professores: ensinarem. Humilhados, ofendidos, desacreditados, reagiram - felizmente, reagiram, que mestres covardes seria o fim da honestidade e o triunfo dos que nos convidam a aceitar a vigarice dos dias, em que o especulador vive sobre a miséria do próximo. Ao invés do que disseram os instalados e ambíguos, a reafirmação (revolta) dos professores não abre brechas, não os afasta dos alunos, nem os provoca: quem os ensina mostra aos alunos que não é pobre de pedir, "professoreco", agachado, hesitante, tíbio, com medo de perder o emprego. O professor é o amigo, que escolheu dar-se: entregar aos mais novos a experiência e o conhecimento. Transmitir-lhes a vida que viveu e quanto aprendeu com ela. E o que aprendeu, também, com eles, alunos, em sagrado convívio fraternal e solidário.
2. O espírito "corporativo" juntou os professores, dizem os ignorantes e os de má fé. Uniu-os o "corporativismo"?! É humor negro, comicidade revoltante. E não colhe os trabalhadores do mesmo ofício - como todos os trabalhadores - defendem a dignidade do seu ofício - e nenhum será mais nobre do que o de ensinar. "Corporativismo", no sentido pejorativo, arranjismo em comum, será o dos instalados no dinheiro, ou o dos serviçais políticos. Que, no próximo sábado, um partido dito socialista organize uma (contra)manifestação é deplorável. É paradoxal. É triste. É contraditório. O socialismo defende a liberdade, a iniciativa própria, o diálogo - não o autoritarismo dogmático. Que irá defender o partido dito socialista, (logo por azar na cidade do Porto, que sempre lutou pela democracia)? A indiscutabilidade da política desastrosa? Ou vai justificar o caos em que mergulharam as escolas? Os dois milhões de pobres? Os cem mil portugueses que emigram, anualmente? As crianças entregues à rua?
3. Uma coisa esta política de governo sem nexo - ou com a lógica carnífice do neo-liberalismo- não trava a força da Cultura. A vontade de saber. Ontem, os nossos professores, contra ventos e marés (e investigações policiais), provaram-no. Emprestaram-nos a voz - a nós, também abandonados e explorados, a ver a vida andar todos os dias para trás, em país doente.
Manuel Poppe, JN 9 de Março de 2008
A conflitualidade nas escolas crescerá de forma exponencial se este modelo de avaliação de desempenho, que Ramiro Marques em tão boa hora apelidou de "O Monstro", avançar. Na minha escola os problemas já começaram a ser levantados. Na hora de delegar competências quais os critérios a adoptar? Antiguidade? Currículo? E porque não por sorteio? E....?
E se de facto estiver a ser atropelada a lei? E se de facto estes professores titulares não puderem intervir na avaliação por manifesto interesse na própria avaliação?
De atropelo em atropelo a nossa sanidade mental e a nossa paciência vão-se esgotando lentamente/rapidamente.
Ora leiam este post saído no blogue "oquadropreto".
"Não será um caso de impedimento?
Há uma situação que gostaria ver esclarecida por quem de direito, e que não vi ser formulada em termos públicos pelos representantes dos professores.
Vou transcrever um excerto do CPA.
Código do Procedimento Administrativo:
SECÇÃO Vl – Das garantias de imparcialidade
Artigo 44º
Casos de impedimento
1-Nenhum titular de órgão ou agente da Administração Pública pode intervir em
procedimento administrativo ou em acto ou contrato de direito público ou privado da Administração Pública nos seguintes casos:
a) Quando nele tenha interesse, por si, como representante ou como gestor de negócios de outra pessoa;
…
c) Quando, por si ou como representante de outra pessoa, tenha interesse em questão semelhante à que deva ser decidida....
A forma como a avaliação será feita merece-me a seguinte reflexão.
A – Os professores avaliadores também são avaliados.
B – A atribuição da classificação de Muito Bom e Excelente está sujeita a quotas.
C – Da leitura do decreto que determina a delegação de competências é fácil constatar que cerca de 10% dos professores de uma Escola/ Agrupamento serão avaliadores.
D – Embora ainda não sejam conhecidos os valores das quotas, não será difícil prever, tendo em conta o que se passa na restante função pública, que esse valor não será muito superior a 10%.
E – Os avaliadores formam um grupo constituído exclusivamente por nomeação, que se endoavalia, com excepção dos 6, (ou 4), coordenadores que serão avaliados por inspectores.
F – Quanto menos classificações de Muito Bom e Excelente os avaliadores propuserem, mais sobrarão para si no momento do rateio.
Será que isto não é uma violação das alíneas a) e c) do art 44º do CPA? Não é óbvio que os avaliadores podem ter interesse em não atribuir as classificações mais elevadas e sujeitas a quotas?
Será que o Decreto Regulamentar 2/2008, de 10 de Janeiro, está conforme coma aplicação do Código do Procedimento Administrativo no que concerne à situação acima exposta?
Eu não tenho dúvidas. Não dúvido que existe interesse do avaliador na classificação que atribui. Mas a minha certeza de nada vale.
Prevejo muito traballho para os tribunais administrativos."
In http://oquadropreto.blogs.sapo.pt/
quarta-feira, 12 de março de 2008
Barca - Carvalho de Rei - Amarante - Portugal
Fotografia de Artur Matias de Magalhães
Afinando
Chegou-me agorinha mesmo uma mensagem de um meu aluno de 9º ano solicitando-me para publicar neste blogue um texto por ele escrito e que se intitula "Afinando". E pede-me a minha opinião, pede-me para eu lhe dizer se gostei. E eu, depois de o ler e de me emocionar com a sua profundidade e poesia só lhe posso dizer aqui e agora que não, não gostei. Porque gostar é infinitamente pouco perante um texto deste calibre escrito por um adolescente de 14 anos. Por isso não gostei. Antes adorei. E jamais esquecerei o momento de intenso prazer sentido por mim ao publicar esta prosa poética tão especial, vinda deste miúdo tão especial, que não quer ser identificado. Assim será até ele resolver o contrário.
Afinando
Na vibração da alma, no som do espírito, na suavidade do coração...O pensamento a todos une e separa... E o tempo todos controla...Os dedos deslizam e a vida abranda, tudo começa a fazer sentido... A suave canção entra-nos no espírito e aquece-nos... Os acordes de alegria dão lugar aos de tristeza como numa reviravolta de emoções... Apenas mais uma...Mas... nem tudo está certo... A vida entristece e passa e a radiosa juventude dá lugar à melancólica e sábia velhice... O preto de força e o dourado de luz, luz e brilho dão lugar à melodia do branco...Então, aquando do sono no tempo, da passagem da harmonia da vida para o silêncio da morte nasce a derradeira presciência...Está então tudo afinado...Faça-se música
Barca - Carvalho de Rei - Serra da Aboboreira - Amarante
Fotografia de Artur Matias de Magalhães
Ricardo Cerqueira
Viagem através da vida, da mente e do monte
III - Capítulo
Eu conhecia relativamente bem o caminho até ao posto de guarda e sabia que deveria demorar cerca de um dia para lá chegar. Mesmo assim, coloquei comida para três dias na minha mochila.
Caminhava tranquilamente, embora fosse difícil não pensar como estaria o meu pai. Fiz o meu melhor para não pensar nisso. Até tive sorte, o frio e o vento tinham cessado e o tempo estava agradável. Enquanto caminhava ia pensando e imaginando coisas para me distrair, por exemplo, reconhecia todos os tipos de árvores, embora estivessem cobertas com uma camada de neve cintilante, atribuía nomes às pedras que encontrava no chão, imaginava formas divertidas nas nuvens e continuava sempre determinada.
Já passavam das quatro horas da tarde quando saí de casa, portanto não tardou a anoitecer e, embora tivesse lanterna, não me atrevi a caminhar durante a noite, por muito mais tempo, porque à noite, a cabeça prega-nos partidas um pouco assustadoras.
Encontrei um grande tronco oco junto ao caminho e decidi passar lá a noite. Fui obrigada a fazer uma fogueira, pois o frio não dá tréguas e também não se poupa a esforços para nos fazer congelar até aos ossos. Jantei, comi um pouco de pão e atum enlatado com arroz que aqueci na fogueira.
Depois de comer, deitei-me dentro do tronco e cobri-me com um casaco impermeável. A fogueira crepitava e adormeci embalada pela dança das chamas.
Não sei quanto tempo dormi, mas não deve ter sido muito, pois quando acordei ainda era noite. Um barulho vindo dos arbustos fez-me acordar e fiquei assustada. Apontei a lanterna naquela direcção e nada vi além do que já lá estava antes. Mesmo assim, encheu-se-me a cabeça de pensamentos lúgubres e nefastos.
Julgando que estava a sonhar acordada, constatei que estava num espaço desconhecido e que a fogueira, o tronco, as árvores e tudo o resto tinha desaparecido e que me encontrava como que perdida no espaço e no tempo.
Deambulava dum lado para outro, mas a escuridão cegava-me e ensurdecia-me. Só não se intrometeu com o sentido do olfacto. Sim, não sei porquê, sentia um cheiro muito intenso a atum.
Então acordei verdadeiramente e dei conta de que estava simplesmente a ter um pesadelo. Mas o cheiro a atum era bem real, eu tinha deixado a lata junto da fogueira e o atum cheirava a queimado.
Foi demasiado tarde que me ocorreu que este cheiro poderia atraír algum tipo de animal esfomeado e desesperado, como os lobos. Peguei na lanterna e apontei para todos os lados. Nada de invulgar, excepto o facto de um dos arbustos ter dois pares de olhos. Apercebi-me, então, de que esses olhos pertenciam a dois lobos lazarentos.
Agi instintivamente e, apenas com a lanterna na mão, corri o mais depressa que podia. Os lobos seguiram-me mas não me alcançaram. Provavelmente estariam demasiado cansados. Estava horrorizada de medo e tropecei, caindo na neve. A queda não foi grave, mas bastou para os lobos me encurralarem. Consegui ler nos seus olhos que se riam de mim e da estupidez de ter deixado o atum perto da fogueira. Foi neste momento de puro terror que me veio à memória a minha mãe e o seu lema. Esta lembrança acalmou-me, mas não chegaria a calma para escapar. Embora me custasse a admitir, nada poderia fazer para fugir. Então entrei numa espécie de transe e perdi a noção do tempo. Os lobos continuavam às voltas, à espera do momento certo para atacar. Talvez a minha calma os fizesse “pensar duas vezes”.
Eu continuava a pensar na minha mãe e nas suas histórias, quando um dos lobos soltou um uivo de desespero e atacou. E numa fracção de segundo, o uivo de impaciência tornou-se num grito de agonia e dor. O lobo caiu por terra e o outro fugiu assustado.
Mas, porque é que o lobo tinha morrido? Aproximei-me dele e constatei que tinha uma seta atravessada na barriga. Mas não era uma seta normal, estava decorada de uma maneira estranha. Poderia ser que as histórias da minha mãe fossem verdadeiras? Tive de crer que sim, pois logo de seguida, um indígena apareceu à minha frente. Em vez de agradecer, a única coisa que fiz foi gesticular e gritar, tentando dizer ao índio o que se passava com o meu pai. Pouco tempo depois, desmaiei pelo cansaço e todas as emoções do dia.
Hoje apetece-me relatar como decorreu o meu dia de trabalho da passada segunda-feira.
O meu despertador toca invariavelmente às sete e meia. Felizmente moro a 5 minutos da escola onde trabalho e, assim sendo, uma hora chega-me e sobra-me para andar nas calmas e estar na escola 10 ou 15 minutos antes do toque, a tempo de tomar o meu cafezito e trocar meia dúzia de novidades com alguns colegas hooligans para ganhar ânimo para o resto do dia.
Nem todos os hooligans que trabalham na minha escola se podem dar a este luxo. É que há hooligans do Porto, de Braga, de Vila Real e da Conchinchina que a acrescentar ao tempo da toilette matinal e ao do pequeno-almoço ainda têm a acrescentar as viagens.
Na segunda-feira apresentaram-se a preceito, muitos de preto integral, de luto pela educação. Verdadeiros hooligans.
Mas continuando. Depois do café lá subi as escadas para a biblioteca da escola onde os hooligans que recorrem às novas tecnologias, como eu, vão levantar os projectores que, a par dos computadores portáteis e dos livros, carregam de pavilhão em pavilhão mais parecendo uns burros de carga. No meu caso, cerca de 10 quilos, em dias não muito maus. E lá vou eu para a primeira aula de 45 minutos. Pavilhão A, sala 21. Porreiro, pá, o Ministério pensa em tudo. Carregadinha, subo quatro lanços de escadas e entro na sala. Liga cabos, liga aparelhos e lá se dá início à aula. Os alunos da hooligan apresentam trabalhos feitos em contexto de sala de aula, em powerpoint, sobre o Nazismo e a 2ª Guerra Mundial. Limite para cada apresentação 15 minutos. Alguns alunos apresentam os trabalhos de forma exemplar. Avaliamos os trabalhos. Não é só a opinião da professora que conta. Os alunos também têm de se habituar a intervir desde cedo. É preciso ter todo o cuidado na formação de novos hooligans. Entretanto desmonta tudo, que está na hora de mudar de pavilhão e ainda vou dar uma caminhada para o pavilhão C, distante, para voltar a subir quatro lanços de escadas para a sala do 2º andar onde o meu 9ºF já me aguarda. A cena repete-se e os alunos da hooligan, treinando eles próprios para hooligans, lá continuam a apresentar os seus trabalhos. Uf. Finalmente intervalo. Desmonta tudo, carrega tudo, mais uma viagem pela escola carregando pesos. Mas é importante manter os hooligans em excelente forma física e o ministério pensa em tudo. E eis que já toca de novo. Agora vou para uma turma de Cef`s, alunos do curso de Serralharia de 2º ano. Estamos a iniciar o módulo da Lusofonia e achei por bem passar-lhes um excelente filme português, que relata um episódio da nossa História, os amores de Pedro e Inês. Os alunos torcem o nariz. Prefeririam outra coisa qualquer a um filme português e falado em português, mas os hooligans têm estas veleidades de acharem que devem dar a conhecer o que de melhor por cá se vai fazendo e que devem ir contrariando Chiquititas e Big Brothers. Contextualizei a história do filme, e fui-lhes chamando a atenção para os diferentes tempos da história não fosse eles perderem-se no enredo. Chamei-lhe aula de motivação para o módulo Lusofonia. Desta vez a aula foi de 90 minutos. Saí satisfeita. Afinal até eles estão a gostar do filme. Intervalo. E a história repete-se com o meu Cef de Electricidade.
Uf. Toca para o almoço. São entretanto 13 e 30.
Alguns hooligans têm a sorte de almoçar em casa com a sua família. É o meu caso. Não é o de muitos na minha escola. Muitos hooligans almoçam em bandos na cantina, ou num qualquer restaurante baratito das redondezas.
Às 15 e 10 estou de volta às aulas. Os alunos do meu 9º H avisaram-me que iam faltar quase todos à aula de sexta-feira porque pertencem à organização de uma actividade preparada para o último dia de aulas. Ora como uma hooligan que dá aulas de Francês está a faltar porque tem a filha pequena internada no hospital, vai daí eu resolvi transferir a aula de sexta para a hora de Francês. Assim tenho os alunos todos na sala. Podia não ter feito isto. Chegaria sexta-feira à sala, marcaria falta a todos os alunos, faltas estas que estariam justificadas, e iria encantadita para a sala onde os hooligans se encontram. Mas não. Essa não é a minha postura. Concluímos as apresentações dos trabalhos. Os alunos fizeram a auto-avaliação, despedi-me deles desejando-lhes boas férias de Páscoa, que os hooligans têm a mania de ser educados. Uf. Intervalito de 10 minutos. Quando pouso o material na biblioteca está a tocar de novo para dentro.
E lá vai esta hooligan dar uma aula ao Cef de Carpintaria, para compensar uma que calhou num feriado. E o que é que os feriados têm a ver com isto? É que os alunos têm de ir para estágio em Maio e não posso estar a atrasar as aulas sob pena de as ter de leccionar aos sábados. Vai daí procuro não atrasar nada. Esta hooligan faz greve, tem falta, não recebe o dia de trabalho e depois repõe as aulas a que faltou. Tudo a preceito, como uma verdadeira hooligan que é.
Enfim. Toca para fora às 6 e 20. Estou em casa às 6 e 30. Exausta. E o meu dia ainda não terminou porque tenho ainda testes para corrigir que terei de entregar impreterivelmente esta semana. O meu dia ainda não acabou porque, como sempre, trago TPC da escola. E hoje nem pensar aproximar-me das minhas apresentações em powerpoint que terão de ficar para depois... que terão de ficar para depois. Estou em casa. Exausta. E continuo a trabalhar para a escola. Antigamente faria isto exausta mas com prazer. Na segunda-feira continuei a fazer os meus TPC`s mas enraivecida. Digamos que me estou a transformar numa hooligan enraivecida.
terça-feira, 11 de março de 2008
Barca - Carvalho de Rei - Serra da Aboboreira - Amarante
Fotografia de Artur Matias de Magalhães
Ricardo Cerqueira
Viagem através da vida, da mente e do monte
II - Capítulo
Agora que já me conhecem quando eu tinha dez anos, é altura de vos contar a minha aventura.
Estávamos a viver um Inverno particularmente rigoroso. As folhas das poucas árvores pendiam como estalactites pontiagudas de gelo. Apesar do frio, gosto do Inverno, poder moldar a neve, observar os pequenos e perfeitos flocos a cair do céu nublado. Este era como uma cortina imaterial que separa as estrelas dos nossos olhos que, em vão, procuram um pequeno brilho cintilante.
Sim, quando se vive longe da cidade e das suas luzes e ruídos, habituamo-nos a ter uma noite muito clara, pois as estrelas que inundam o céu, vestem a lua com um brilho prateado tão luminoso, que imita o Sol. O único problema de estar no Norte, numa noite estrelada, é o barulho dos uivos dos lobos famintos. Nas noites de luar, ouve-se perfeitamente aquela “voz da floresta” a dirigir-se à lua.
Voltando à história, como já disse, o Inverno estava a ser muito rigoroso e a lenha era cada vez mais necessária para manter a nossa casa quente. Foi numa dessas noites de luar hipnotizante que o meu pai teve de sair de casa para ir buscar madeira. Como se lembram, não existiam árvores perto do lago, pelo que o meu pai teve de se afastar bastante de casa. Obviamente, fiquei muito preocupada e não queria deixá-lo sair de casa com o frio que se fazia sentir. Mas o frio não era a minha maior preocupação, eu tinha presenciado uma conversa do meu pai com outros guardas, sobre o quão agressivos os lobos daquela região se tinham tornado devido à escassez de alimento naquele Inverno exageradamente severo. Mas, embora estivesse preocupada, sabia que o meu pai conhecia bem a região e saberia esconder-se se necessário, por isso mantive o meu sangue-frio.
Esperei pelo meu pai a noite toda sem que ele regressasse. Acabei por ser vencida pelo cansaço e adormeci. Quando acordei reparei que continuava sozinha, por isso, concentrei-me e chamei o meu amigo imaginário. Ele perguntou-me o que se passava e eu respondi-lhe que ele já sabia. A partir desse momento, ele começou um longo discurso que foi reconfortante e encorajador, terminando com a seguinte questão:
- Só resta saber que decisão vais tomar e o que vais fazer a seguir.
Fiquei-lhe agradecida e a minha irresolução e medo cederam lugar à esperança e coragem.
Decidi esperar mais umas horas, porque o meu pai ainda poderia voltar, mas se estivesse em apuros eu deveria ser rápida.
Enquanto esperava, e já a preparar-me para a eventualidade de o meu pai não regressar, organizei e racionei a comida, preparei as lanternas, procurei o estojo de primeiros-socorros e coloquei tudo na minha mochila.
Provavelmente estão-se a perguntar porque é que eu não utilizava o telefone para pedir ajuda, em vez de estar com tanto aparato e confusão. Na verdade, durante uma tempestade de há dias atrás, um raio atingiu um poste e ficámos sem electricidade e sem linha telefónica. O meu pai esperava que o mau tempo passasse para ir à cidade chamar alguém para arranjar o poste.
As horas foram passando e achei que era altura de me pôr a caminho.
Mas, a caminho de quê? Não podia ir à procura do meu pai, porque se ele estivesse em apuros, eu pouco ou nada poderia fazer. Também não podia ir a pé para a cidade, a distância era muito grande, demoraria cerca de três horas de carro. A única coisa que podia fazer era atravessar o monte e ir até ao próximo posto de guarda-florestal. Então, sem mais demoras, pus-me a caminho.
- Rangel tem vergonha destes pseudo-professores que trabalham pouco, ensinam menos e não aceitam avaliações?!
Onde é que ele ouviu isto? Onde é que ele viu isto? O sr Emídio Rangel conhece a realidade das escolas?
- Os professores lembram-lhe hooligans quando há uma disputa futebolística?!
Esta abstenho-me de comentar... podia sair muito feia....
- Os professores chegaram pela manhã em autocarros vindos de todo o País, alugados pelo Partido Comunista?!
Onde é que ele ouviu isto? Onde é que ele viu isto? Não basta afirmar, é necessário comprovar.
- Os professores de Emídio Rangel eram referências para os seus alunos?!
E nós o que somos para os nossos alunos? Hooligans, Emídio?
- A maior parte dos professores de Emídio Rangel escolheu aquela profissão porque gostava de ensinar?!
E agora, não? Em que estudos se baseia Emídio Rangel para fazer semelhante afirmação?
- A manifestação é contra uma ministra sábia, tranquila, dialogante?!
Nota-se. Ai que eu também sou cego! Ai que eu também sou surdo!
- Os professores transformaram-se em soldados do Partido Comunista, para todo o serviço?!
Isso era o que o Partido Comunista queria...
- É absolutamente nítido que os professores não têm razão?!
Mas o que sabe este senhor sobre a vida dos professores e sobre a razão dos professores?
A propósito...alguém me explica quem é este tal de Emídio Rangel? Ele escreve sempre assim? Será alguém que caiu no esquecimento e virou agora artista de circo tentando desesperadamente que os holofotes o voltem a focar, focados que agora estão num outro Emídio qualquer?
Emídio, por que no te callas?!!!
segunda-feira, 10 de março de 2008
Barca - Carvalho de Rei - Serra da Aboboreira - Amarante
Fotografia de Artur Matias de Magalhães
I - Capítulo
Tudo começou quando eu tinha dez anos. Mas talvez seja boa ideia recuar seis anos no tempo, para perceberem melhor o que vos vou contar.
Há seis anos atrás, a minha mãe ainda era viva e eu muito jovem. Sim, perceberam bem, a minha mãe morreu quando eu ainda tinha quatro anos, mas deixem-me descrever-vos a minha vida naqueles tempos para compreenderem o que isso significou para mim.
A minha mãe era professora de Grego, numa universidade cujo nome não consigo recordar, e adorava o seu trabalho. Como professora de Grego que era, nunca deixou de ter ideias e conceitos um tanto ou quanto filosóficos, já que muitos dos grandes pensadores e filósofos da História foram Gregos. Um desses conceitos era o de que os nomes que cada um possuía deviam ter um significado mais profundo, um valor mais intrínseco que nos devia caracterizar. Fruto deste pensamento nasceu o meu nome, Sofia Kallos. Pode parecer um nome estranho, mas reparem no seu significado, - Sofia provém do Grego “sophia”, que significa sabedoria, e “Kallos” é a palavra original grega para “beleza” -, acaba por ser um nome bastante dignificante e motivo de orgulho.
Bem, voltando à história, agora compreendem um pouco a minha mãe, mas nada sabem sobre o meu pai. O meu pai era guarda nocturno num museu, por isso tinha que ser uma pessoa corajosa. Era também muito impulsivo, e foi esta característica que levou a minha mãe a reparar nele. Já que o meu pai era guarda nocturno, quem me adormecia todas as noites era a minha mãe, e esta é a memória que melhor preservei dela. Quase como um quadro enternecedor, recordo-me do cheiro do seu perfume preferido, do toque suave da sua mão sobre a minha cabeça e da sua doce voz contando histórias.
Eu adorava ouvir uma boa história antes de adormecer, e as minhas preferidas eram sobre uma aldeia de indígenas do Norte, que existia, perdida no tempo, no sopé de uma montanha. Os indígenas que lá viviam eram uma sociedade um pouco estranha, mas, agora que penso nisso, funcional, porque não usavam dinheiro ou outra coisa material para comprarem alimentos ou serviços, usavam o conhecimento. Permitam-me que explique melhor, todas as descobertas feitas sobre qualquer coisa, todas as novas conclusões a que se chegasse, toda e mais alguma informação que fosse nova valeria algo dependendo da sua utilidade. Isto agrada-me. Pensar que pudesse existir uma sociedade que não dependesse de nada, a não ser da sede de conhecimento e da vontade de querer saber sempre mais, para subsistir. Mas prossigamos com a minha história, éramos uma família feliz, até que um dia a minha mãe adoeceu e ficou incapacitada. O meu pai fez o melhor possível para cuidar dela, e os médicos também, mas a doença progredia a uma velocidade estonteante, e o nosso medo crescia exponencialmente. Um dia a minha mãe chamou-me ao seu quarto e eu sabia que esta seria a despedida final, por isso a única coisa que consegui fazer foi chorar. Verti lágrimas de infelicidade durante horas a fio, até que, por fim, adormeci de cansaço. Quando acordei proferiu as suas últimas palavras:
- Não temas a morte, receia sim, a vida não vivida.
Dita esta frase a minha mãe adormeceu para não voltar a acordar. Os anos foram passando, e tendo sempre a última frase da minha mãe como lema, tornei-me impulsiva, como o meu pai, mas adquiri o gosto pela leitura e pelo saber. Eu e o meu pai deixamos a cidade e fomos viver para longe, para um lugar a que gosto de chamar “tundra”. O meu pai tornou-se guarda de uma reserva natural, e vivíamos numa casa que parecia saída de um conto de fadas.
Agora é chegada a altura de vos descrever onde e como vivia quando tinha dez anos. Morávamos perto de um grande lago que permanecia gelado a maior parte do ano, devido ao frio. O meu pai ensinou-me a patinar nesse lago e eu desenvolvi uma espécie a afeição por aquela “janela para o interior do mundo”. Este era o nome que eu gostava de lhe chamar.
Em redor do lago não existia muita vegetação, à excepção de arbustos ou árvores solitárias. As rochas eram frias como gelo e cobertas por um musgo pardacento. A quietude daquele lugar era avassaladoramente ensurdecedora, mas eu gostava daquela sensação de calma.
O meu pai encarregou-se da minha educação e fazia todos os possíveis para que eu aprendesse sempre mais. Passava todo o meu tempo a ler e a pensar, mas às vezes fartava-me e apetecia-me brincar com alguém. Foi então que criei um amigo imaginário, uma espécie de consciência que existia fora e dentro de mim. Imaginava-o sempre como uma planta ou árvore, não sei porquê. Talvez por gostar da ideia de que, mesmo os seres que não falam, possam sentir.
Nunca precisei de lhe dar nenhum nome, bastava-me concentrar um pouco para ver a sua cara amistosa e sábia reflectida nos troncos ou caules das plantas.

Relatório da Visita de Estudo
A postar apressadamente, durante o meu intervalo de almoço, só para partilhar este relatório realizado na Escola Secundária de Amarante, assinado pelos professores que integraram, no passado sábado, a gloriosa Marcha da Muita Indignação.
O sumário da aula dada, num dia tão complicado para nós por tão próximo do final do segundo período e das avaliações dos nossos alunos, e num dia "oficial" de descanso, enche-me de orgulho.
domingo, 9 de março de 2008
Aqui deixo um link para mais uma reportagem sobre o nosso glorioso feito de ontem. Dedico este post a todos os professores que integraram a Marcha da Muita Indignação e que só agora estão a pôr a escrita em dia.
Estou orgulhooooooooosa!!!
Até dizer chega!!
http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=331784&tema=27
Manif - 8/3/2008
Acabadinha de chegar de Lisboa testemunho, aqui e agora, que a manifestação foi impressionante. Mais impressionante ainda do que eu estava à espera. Bem sei que nestes últimos dias as previsões foram engrossando - 20 mil, 40 mil, 50 mil, 60 mil e na sexta falava-se já de 80 mil manifestantes. Fomos mais. Números oficiais, ouvi na rádio a caminho de Amarante, cerca de 100 mil pessoas que protestaram, e protestaram, levantando bem alto a sua voz, na capital, local onde se acoitam os nossos políticos.
Logo pela manhã suspeitei que fossemos muitos. Pela auto-estrada do Norte, os autocarros, com professores de luto, eram imensos. As áreas de serviço a abarrotar faziam já prever uma enchente. Parámos na área de serviço de Pombal que estava transformada num caos completo e absoluto. As casas de banho dos homens, foram ontem partilhadas pelas mulheres. Sim, ontem foi o Dia da Mulher e nós tranquilizávamos a rapaziada assegurando que não olhávamos para os urinóis ao que eles respondiam "Hoje não há homens nem mulheres. Hoje há professores!"
Recebo uma mensagem do Renato "Hoje é que quero ver se tens os t... no sítio." que me deixou a gargalhar. Resposta "Não duvides." O ânimo é excelente. Sabemos que nos espera um dia cansativo, mas a energia está ao rubro.
A chegada a Lisboa faz adivinhar o banho de multidão. A espera até começarmos a andar foi imensa. Enfim, com muito atraso, lá fomos em passo lento. Não abrimos coisíssima nenhuma, mas avançamos enérgicos chamando a atenção para o facto de sermos de Amarante. Ouviam-se palavras de ordem como "Piu, piu, piu, a ministra já caiu", "Ou, ou, ou, a ministra já voou" ou ainda cantorias do tipo "Voa, voa, ministra voa, vai pra casa trabalhar, tu sozinha não és nada, leva o Sócrates para atrapalhar", e ainda "Estes são os professores da Nação, unidos para vencer, orgulhosos de dizer, à ministra Não e Não".
Fomos aplaudidos pelas ruas. Amarante fez questão de se fazer notar e de fazer ouvir a sua voz. Os lisboetas comentavam dos passeios "Amarante, estão aqui! Parabéns!" Faziam questão de nos dar os parabéns e foi muito gratificante, sentir todo este apoio e carinho. Pais, encarregados de educação, avós... comovente até, o apoio sentido nas ruas.
Entramos na Praça do Comércio estava a acabar o comício. Os nossos colegas apercebendo-se que entravam na praça os professores de Amarante fizeram questão de nos aplaudir e ovacionar. Comovente de novo. Ainda cantamos o hino. Não deixámos ficar mal a terra de Acácio Lino, Amadeo de Souza-Cardoso, António Cândido, Agustina Bessa Luís...Fizemos muito barulho. Fizemos questão que lessem Amarante. Não gostamos que nos branqueiem e tentem silenciar o nosso descontentamento. O pessoal começou a desmobilizar mas a praça esvaziava de um lado e enchia do outro e os manifestantes não paravam de chegar. Parecia um rio revolto avançando imparável. Mário Nogueira voltou a falar, apercebendo-se que só agora entravam os professores do Norte. Do Norte, carago! A praça encheu de novo. Uma loucura. Uma loucura.
Cheguei estafada, mas ainda a tempo de escrever e partilhar o orgulho sentido, hoje, na primeira manifestação a que fui em toda a minha vida! Aos 46 anos, com mais de 20 de profissão, sem filiação partidária ou religiosa, foi preciso um governo socialista para me fazer integrar uma manifestação de rua. Foi obra!
Valeu. E vai valer. Olá se vai.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Hiperactiva como sou, hoje ainda arranjei tempo para dar um salto à Biblioteca Municipal de Amarante, para assistir ao lançamento do livro da professora doutora Maria Celeste Natário. Para mim, que fui sua colega de Liceu, de turma, de carteira, a professora doutora de Filosofia é simplesmente a Celeste, por quem nutro uma profunda e enorme admiração e por quem tenho uma enorme amizade, muito embora as nossas vidas já tenham sido muito mais próximas. Vamo-nos encontrando, por vezes até vamos falando ao telefone, mas a verdade é que as vidas de todos nós andam meio malucas e anda cada um para o seu lado. Neste caso, cada uma. A Celeste saiu de Amarante há uns bons 25 anos e eu por cá permaneci e permanecerei. Hoje fartei-me de lhe tirar fotografias. Porra que a rapariga está lindíssima. Sim, sempre foi. Moreníssima, olhos muito escuros, apurou a sua natural elegância e porte distinto.
A apresentação do livro Entre Filosofia e Cultura esteve a cargo de Mário Cláudio e a Celeste na intervenção que se seguiu, falou pausado e acertado, não cansando a plateia que a hora já era tardia. Fui com sacrifício, mas teria sempre de ir, nem que fosse de rastos, apoiar esta minha amiga de adolescência com quem eu partilhei tanta conversa íntima. Bom revê-la. Bom revê-la mais bonita do que nunca. Bom revê-la bem.
"Os professores do Departamento de Línguas e Literaturas, da Escola Secundária D. Maria II, Braga, na sua reunião ordinária de hoje, 5 de Março, abordaram, inevitavelmente, o modelo de avaliação que nos querem impor. Após demorada, participada e viva discussão, os respectivos professores decidiram redigir e aprovar o documento que, de seguida, transcrevo na íntegra:*
. Atendendo a que, sem fundamento válido, se fracturou a carreira docente em duas: professores titulares e não titulares;
. Atendendo a que essa fractura se operou com base num processo arbitrário, gerando injustiças inqualificáveis;
.Atendendo a que os parâmetros desse concurso se circunscreveram, aleatória e arbitrariamente, aos últimos sete anos, deitando insanemente para o caixote do lixo carreiras e dedicações de vidas inteiras entregues à profissão;
. Atendendo a que, por via de tão injusto concurso, não se pode admitir, sem ofensa para todos, que seguiram em frente só os melhores, e que ficaram para trás os que eram piores;
. Atendendo a que esse concurso terá repercussões na aplicação do assim chamado modelo de avaliação, já que, em princípio, quem por essa via acedeu a titular será passível de ser nomeado coordenador e, logo, avaliador;
. Atendendo a que, por essa via, pode muito bem acontecer que o avaliador seja menos qualificado que o avaliado;
. Atendendo a que o modelo de avaliação é tecnicamente medíocre;
. Atendendo a que o modelo de avaliação é leviano nos prazos que impõe;
. Atendendo a que o modelo de avaliação contém critérios subjectivos;
. Atendendo a que há divergências jurídicas sérias relativas à legitimidade deste modelo; . Atendendo a que o Conselho Executivo e os Coordenadores de Departamento foram democraticamente eleitos com base nas funções então definidas para esses órgãos;
. Atendendo a que este processo, a continuar, terá que ser desenvolvido pelos anunciados futuros Conselhos de Escola, Director escolhido por esse Conselho, e pelos Coordenadores nomeados;
. Nós, professores do Departamento de Línguas, da Escola Secundária D. Maria II, não reconhecemos legitimidade democrática a nenhum dos órgãos da escola para darem continuidade a um processo que extravasa as funções para as quais foram eleitos;
. Mais consideram que:
. Por uma questão de dignidade e de solidariedade profissional, devem, esses órgãos, suspender, de imediato, toda e qualquer iniciativa relacionada com a avaliação;
. Caso desejem e insistam na aplicação de tão arbitrário modelo, devem assumir a quebra do vínculo democrático e de confiança entre eles próprios e quem os elegeu, tirando daí as consequências moralmente exigidas.
*Notas:*
*1 – Dos 22 professores presentes, 21 votaram favoravelmente e 1 votou contra:*
*2 – Para além de darem conhecimento imediato deste documento aos órgãos, ainda democráticos, da escola, os professores decidiram dá-lo a conhecer a todos os colegas da escola;
*3 – Decidiram também dar ao documento a maior divulgação pública possível, e enviá-lo directamente para outras escolas e colegas de outras escolas;
*4 – Pede-se a todos os professores que nos ajudem na divulgação deste documento, e que o tomem como incentivo e apoio para outras tomadas de posição;
*5 – Este documento ficou, obviamente, registado em acta, para que a senhora ministra não continue a dizer que nas escolas está tudo calmo, e que só se protesta na rua;
*6 – A introdução e as notas são da minha exclusiva responsabilidade;
*7 – Tomo a liberdade de agradecer com prazer aos professores da Escola Secundária D. Maria II, Braga, e principalmente às mulheres, as mais aguerridas, pelas posições firmes que têm assumido, e por rejeitarem qualquer outro lugar que não seja a linha da frente da luta pela dignidade docente. É um orgulho estar entre vós.
*António Mota*
Escola Secundária D. Maria II, Braga"

Insólito na ESA II
Ao que parece circula por SMS uma mensagem com o seguinte teor "Sou professora na Escola Secundária de Amarante e estou indignada e revoltada por ter um director/comissário político".
Soube desta mensagem hoje mesmo, logo pela manhã, mal entrei na escola através de um comunicado da Direcção. O reboliço era mais que muito e lá tomei contacto com o teor da mensagem, assim como com o teor do comunicado.
Eu nem sei o que dizer, nem sei se me apetece chorar, nem sei se me apetece emigrar para bem longe daqui, tal a revolta e a indignação crescentes na ESA, na sala de professores. Houve professores que desmarcaram os compromissos que já tinham para integrarem a manifestação de amanhã. In extremis. Mas ainda a tempo.
Eu só sei que eu amo profundamente a minha profissão, os meus alunos e não tenho as condições de serenidade suficientes para prosseguir o meu trabalho. Sinto-me exausta, irritada, nervosa, agitada por tudo o que está mal e vai mal na minha profissão. Tanta gente a protestar, tantas vozes importantes neste país que se ergueram já em nossa defesa... estaremos todos errados? Seremos todos analfabetos que não sabemos ler e compreender as palavras caridosas da nossa ministra?
Pelo que sei abriremos amanhã a manifestação. Os professores de Amarante, particularmente os da ESA.
É importante que o país inteiro nos veja, branqueados ontem, de luto amanhã, integrando de cabeça erguida a Marcha da Indignação. Sem medos. A democracia é bela.

Catarina
Fotografia de Não Sei Quem
Catarina
Ando numa vida lixada. Ontem nem fiz post de parabéns à minha querida sobrinha Catarina, mais conhecida por Cacá. Vai daí aqui fica este post para repor a legalidade das coisas com um pedido de desculpas, público, pela minha distracção de ontem.
Pois a Catarina fez ontem 18 anos e vá lá, não me esqueci totalmente, e lá fui ao Porto cantar-lhe os parabéns, ao vivo e a cores, enquanto ela apagava as velitas do seu bolo. Costumo dizer à minha sogra sobre a Cacá "É a sua neta mais bela". De facto, morena, longos cabelos naturalmente ondulados pelas costas abaixo, é de uma beleza realmente exótica e tem até algo de felino e misterioso naquele olhar escuro e profundo. Está num ano crucial da sua vida, o 12º ano. Excelente aluna, entrará no curso superior que decidir ser o seu e caminhará, firme e segura, ao longo da vida que a espera.
Aqui lhe deixo um enormesco beijinho de parabéns.

quinta-feira, 6 de março de 2008

E lá vou, de novo, ao trabalho.

Acabei de ver e ouvir a reportagem passada na RTP1 sobre o processo de avaliação de professores. Acabei de ver e ouvir o branqueamento feito, no final da reportagem, aos protestos que se fazem, também na Escola Secundária de Amarante, contra um modelo de avaliação extraordinariamente pesado e burocrático, metido a ferros já no decurso do 2º período, sem qualquer cuidado por parte da tutela empenhada, como parece, na condução de todo este processo de forma atabalhoada, autista e suicida.
Como se encarregaram de afirmar as minhas colegas entrevistadas, não estamos contra a avaliação de professores. Exigimos ser avaliados. Agora não branqueiem a nossa posição de pessoas responsáveis e por isso descontentes e indignadas pelo clima de grande confusão e conflitualidade que cresce a olhos vistos entre nós, no seio da Escola Pública, fruto desta avaliação que avança, qual avalanche, não olhando a soterrados, não olhando a meios para atingir os fins.
Amarante estará presente na Marcha da Indignação. Apesar do branqueamento hoje feito ao nosso descontentamento. Amarante estará presente mostrando o seu descontentamento.
Pois foi uma grande coincidência aquela que aconteceu ontem à tarde na minha escola.
Primeira aula assistida, no âmbito deste processo de avaliação de desempenho. Assistiram os quatro coordenadores de departamento, para testarem os instrumentos de registo de avaliação de desempenho de professores e o director da escola. À saída da dita aula dá-se uma coincidência do caraças... jornalistas da RTP1, de câmara e microfone em punho, prontos a fazer o ponto da situação e a entrevistar os intervenientes no processo.
Há coincidências fantásticas, não há?
Pelo que sei a reportagem é passada hoje mesmo nos noticiários nacionais.
Ainda não consegui fechar a minha boca aberta, de espanto... há coincidências fantásticas não há?
"Meus amigos,
Para que os partidos e os governantes percebam a dimensão da nossa luta, vamos todos (os que assim entenderem) enviar já para
. o portal do PS portal@ps.pt;
. o primeiro-ministro e a ministra da educação
http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Geral/Contactos;
uma mensagem dizendo o seguinte (cada um deve escolher o que se aplica ao seu caso):
SOU PROFESSOR(A) HÁ X ANOS!
NÃO SOU FILIADO EM NENHUM PARTIDO!
NÃO SOU FILIADO EM NENHUM SINDICATO!
NUNCA PARTICIPEI EM GREVES!
NUNCA PARTICIPEI EM MANIFESTAÇÕES!
DIA 8, NÃO POSSO FALTAR... PORQUE ESTÁ EM CAUSA O FUTURO DO MEU PAÍS!"
quarta-feira, 5 de março de 2008





